Por O Dia

O mercado de juros desatrelou-se ontem tanto do dólar quanto dos ativos internacionais que exercem influência sobre ele. Em alta, desrespeitou não só o viés de baixa do dólar como também a pasmaceira nas negociações com títulos do Tesouro americano. Os contratos de DI futuro transacionados na BM&F subiram, sobretudo o que vencerá na virada do ano, porque tesoureiros e gestores alteraram as suas expectativas para as próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Desde a quinta-feira da semana passada, a taxa para janeiro de 2016, quando oscilava, não saía da estreita faixa entre 13,26% e 13,27%, mas ontem o contrato deu um salto para até 13,39%, encerrando o dia em 13,34%. Os DIs mais longos foram atrás: a taxa para janeiro de 2017 avançou de 12,95% para 13,02% e o contrato para janeiro de 2021 passou de 12,40% para 12,51%.

O que aconteceu? Os players do DI futuro trabalhavam consolidadamente com o cenário de que o Copom iria, em sua reunião daqui a menos de duas semanas, encerrar o ciclo longo de aperto monetário, iniciado em abril de 2013, com uma elevação final da Selic de 0,50 ponto. A taxa, hoje em 12,75%, pararia de subir quando chegasse em 13,25% no dia 29. A divergência não se dada em relação ao encerramento do ciclo, mas ao tamanho da alta final. Uma ala de instituições — numericamente menor, mas relevante pelo porte e volume de negócios — enxergava indícios de que o Copom inclinava-se a aumentar a taxa básica em apenas 0,25 ponto, e não em 0,50 ponto. Neste último caso, preservaria o ritmo anterior e abriria espaço para uma elevação subsequente em junho, esta sim de 0,25 ponto.

As instituições que vinham reconhecendo a qualidade da análise da corrente menor que defendia o 0,25 ponto foram nas últimas semanas revertendo posições de forma a precificar uma Selic final de 13%. Mas ontem um movimento avassalador de compra de contratos pós-fixados reintroduziu com força a hipótese não só de o BC avançar a Selic agora em abril para 13,25% como também de continuar subindo a taxa em junho. Diante de uma avalanche de ordens de compra, as instituições que apostavam no 0,25 ponto não podem insistir obstinadamente nessa posição porque, devido ao mecanismo de ajuste diário da margens de oscilação dos contratos, quem está na contramão do mercado é atropelado impiedosamente. Não é sensato arrostar o resto do mercado no peito. Convém, nesses momentos, reduzir as posições, revertê-las ou pelo menos travá-las. Tal movimento de defesa, de interrupção de prejuízos, magnifica a tendência de alta do juro futuro.

Mas há razão para tanto pânico? Um altista em juros não pode puxar a taxa para cima na ausência de justificativas consideradas plausíveis pelo restante do mercado. Mas pode intensificar um viés nascente por meio de boatos aterradoras ou compras de lotes já amarrados a vendas posteriores. Na raiz da alta, há alguns pretextos que devem ser investidos de credibilidade. O principal foi fornecido pela própria presidente Dilma Rousseff.

Na entrevista com bogueiros, Dilma, indagada sobre as causas do naufrágio de sua popularidade, não pestanejou: a culpada é da inflação. Disse a presidente: “O problema da nossa base é a inflação, a questão do poder aquisitivo das pessoas. Nós estamos fazendo todo o esforço para que essa questão dure pouco e não comprometa o poder de compra das pessoas”. Os responsáveis não são as denúncias de corrupção, o ajuste fiscal, as passeatas de ódio ou a crise política. É a inflação. O brasileiro sente a crise no bolso quando vai ao supermercado, ao shopping ou à rua de comércio do seu bairro. Pela última pesquisa do Datafolha, 78% dos consultados disseram acreditar que a inflação irá se acelerar ainda mais. Crer só é poder quando a economia cresce turbinada por demanda. Não é o que ocorre agora. Hoje a inflação resulta do choque das tarifas públicas. O raciocínio atribuído pelo mercado à presidente é simplista: o soluço inflacionário atual deriva das tarifas e do ajuste fiscal e, para combatê-lo, é preciso dar novas pauladas na Selic, mas, no ano que vem, o país voltará a crescer.

Culpar a inflação é um expediente antigo. O Copom acelerou o aperto monetário no começo de 2014 em resposta a pesquisas eleitorais apontando o combate à inflação como a prioridade que deveria ser a máxima do governo. Ele só deu uma pausa no ciclo de alta do juro em maio. Manteve a Selic em 11% até setembro e, três dias depois do segundo turno, elevou a taxa para 11,25%, estarrecendo a direita e escandalizando a esquerda. A inflação nunca deixou de ser prioridade. Mas o mercado entendeu ontem — tardiamente, já que a entrevista aos bogueiros foi no início da semana — que a presidente estava dando ordem ao seu BC, que desfruta teoricamente de autonomia operacional, para continuar subindo a taxa.

O mercado passou a acreditar — genuína ou especulativamente, tanto faz, já que o efeito é o mesmo — que o BC recebeu a ordem e a acatou depois que o presidente Alexandre Tombini alterou para uma perspectiva atemporal o “guidance” de política monetária. O tradicional “vigilante” foi melhor qualificado por ele: “O BC foi, está e continuará sendo vigilante”. A rigor, não há nenhuma novidade nisso. Como guardião da moeda e da estabilidade financeira, é inconcebível um BC que não seja vigilante. É sua obrigação legal, mesmo se não existisse um sistema de metas de inflação, zelar diuturnamente para que a inflação não corroa o poder de compra da moeda ou desorganize o sistema econômico. Um BC vigilante é aquele que, para ser redundante, vela em estado de vigília, ou seja, não dorme no ponto. É o mínimo que se espera de um BC que, no final do ano, vai ter de escrever uma carta aberta ao ministro da Fazenda explicando porque o teto de 6,5% da banda inflacionário estourou. Na carta, ele não vai dizer que vazou porque o senhor — o ministro da Fazenda — fez um tarifaço e aumentou impostos. Mas o BC, além da vigilância insone, precisa enfeixar outras qualidades, a principal das quais é a responsabilidade macroeconômica. Outra é a previsibilidade construída por meio de um discurso coerente.

Se o pregão de DI futuro da BM&F estiver certo e o BC, além da alta da Selic já esperada para o dia 29, insistir no ciclo de aperto, na prática a autoridade estará promovendo mais uma guinada em sua narrativa recente. Estará abrindo mão do cenário construído com muita habilidade e precisão no seu último Relatório Trimestral de Inflação (RI) — o de que a inflação iniciou este mês de abril uma longa trajetória declinante capaz de fazer convergir, sem esforços maiores e adicionais da política monetária, o IPCA para o centro de 4,5% da meta inflacionária no final de 2016. O mercado comprou esse futuro visto pelo BC. Se mudou de novo e tão rapidamente a visão da autoridade, como voltar a confiar nela?

O dólar ignorou toda a espuma levantada pela suposta criminalização das “pedaladas” fiscais, e caiu acompanhando o declínio global. Fechou cotado a R$ 3,0167, em desvalorização de 0,58%. Se o mercado externo permitir, hoje vai testar os R$ 3,00.

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