Para quem pensa que a corrupção no Brasil é uma chaga que surgiu algumas décadas atrás, uma surpresa: ela nasceu e se espalhou logo após a independência do país

Por O Dia

Os Filhos da Pátria%2C minissérie da Globo%2C com Alexandre NeroMauricio Fidalgo/tv globo

Rio - Para quem pensa que a corrupção no Brasil é uma chaga que surgiu algumas décadas atrás, uma surpresa: ela nasceu e se espalhou logo após a independência do país. Pelo menos é o que a série 'Os Filhos da Pátria' vai mostrar de forma bem-humorada, e até ousada, em 12 episódios. Escrita por Bruno Mazzeo, com direção de Maurício Farias, a produção estreia hoje, na Globo, e aborda o início da vida política brasileira, retratando já no primeiro episódio o dia seguinte ao grito de independência de Dom Pedro I. Do dia 8 de setembro de 1822 em diante, essas terras tupiniquins nunca mais foram as mesmas.

"A história é atemporal, estamos tratando da nossa essência também. A isso juntou-se o desejo de falar sobre a história do Brasil. O que acontece hoje em dia é a conta do que já vem há muito tempo", explica o autor Bruno Mazzeo.

As mudanças na vida da população são mostradas através da família Bulhosa, típica classe média brasileira da época. Alexandre Nero e Fernanda Torres vivem o casal Geraldo Bulhosa e Maria Teresa, que custa a acreditar na independência e até mesmo teme suas consequências, já que Bulhosa é português. "O meu humor é mais ácido, também acho graça do mau humor. Então, fazer parte dessa obra foi uma excelente estreia na comédia, pois trata de temas que me interesso. É importante ver como pode ter nascido o jeitinho brasileiro, os valores que hoje ainda vigoram na sociedade, entre outras questões enraizadas na cultura", conta Nero.

ESQUEMA ILEGAL

Funcionário público, Bulhosa é responsável pelas correspondências entre Brasil e Portugal e vê seu emprego ameaçado após a independência do país. Mas logo é ajudado de forma duvidosa pelo seu colega de trabalho Pacheco, vivido por Matheus Nachtergaele. Como uma das referências ao modo operandus da política atual, o famoso "jeitinho brasileiro" ganha vida. Para preservar seu posto, bem ao estilo "uma mão lava a outra", Bulhosa aceita compactuar com os esquemas escusos de Pacheco, cobrando taxas sobre o serviço público. E assim, o funcionário público ganha gosto pela vida fácil da corrupção.

Para Alexandre Nero, é importante a série ter criado um corrupto que não é bandido. "Sempre fazem dos bandidos personagens caricatos. Mas as pessoas são comuns. É um pai de família, que fala mil coisas maravilhosas, é íntegro. Mas por que ele se corrompe? Porque é fácil e sedutor. E ele sabe que não vai ser punido", explica. Em contrapartida, a personagem da Fernanda Torres se desdobra para conseguir o tão sonhado status. Atrás de um bom marido para a sua filha e de aparentar sempre ter muitas posses, Maria Teresa será a grande apoiadora do marido na entrada dele para a corrupção.

"Quando o Bruno Mazzeo me deu a sinopse para eu ler, me candidatei a interpretar Maria Teresa. Ela é de uma era pré-pré feminismo, muito retrógrada. A série fala com humor e inteligência sobre a 'origem do caos'", explica Fernanda Torres.

A trama se passa no século 19, mas os personagens Catarina e Geraldinho são figuras que seriam facilmente encontradas no século 21. Filhos do casal principal, os jovens vividos por Lara Tremouroux e Johnny Massaro, representam papeis como o da feminista e o rebelde sem causa. "Ele acredita que não precisa estudar para se dar bem na vida. É o trunfo da ignorância", diz Johnny.

"Catarina não se enquadra naquela família, é contestadora e enfrentará embates com os pais. Ela sabe o que quer e não aceita os conceitos da época, principalmente quando a mãe lhe diz que ela precisa encontrar um bom partido, um bom provedor", explica Lara.

LINGUAGEM ATUAL

Bordões populares atualmente ganham nova roupagem nas mãos do roteiristas, como por exemplo, "minhas adagas, minhas regras", referente ao movimento feminista.

Bruno Mazzeo acredita ter ainda muita história para contar além da independência. "O que acontece hoje no país não é reflexo de apenas 10, 20 anos atrás. Podemos ver o início disso na independência, mas ganhando corpo em outras situações como a proclamação da República, Era Vargas, JK, ditadura militar. Temos muito o que contar. Nossa história somos nós, e nós somos a história", diz o roteirista.

 

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