Operário do Rock

'Masters' revela que Paul McCartney chegou a fazer uma fogueira no estúdio para agravar o barulho de galhos, e resgata a importância de Linda McCartney

Por O Dia

Capa do livro
Capa do livro "Paul McCartney em discos e sancões", de Claudio Dirani - Divulgação

Assim que ficou claro para Paul McCartney que os Beatles faziam parte do passado, o cantor e compositor não teve dúvidas. Trancou-se para gravar o primeiro disco solo, 'McCartney' (1970), cheio de experimentações musicais, combinadas a baladas belíssimas, como 'Maybe I'm Amazed'. E, viciado assumido em trabalho, não abandonou mais os estúdios e os palcos. Ambos lhe serviram como locais de trabalho, espaços de criação e até como válvulas de escape - como quando a mulher Linda McCartney morreu em 1998.

"Agora, ele está gravando um disco que já era para ter saído esse ano. Mas ele disse que não está pronto", lamenta Claudio Dirani, escritor, jornalista e radialista de São Paulo, que mergulhou em toda a carreira solo do ex-beatle para fazer o livro 'Masters - Paul McCartney em Discos e Canções' (Ed. Sonora, 637 págs, R$ 80).

OI, PAUL, TUDO BEM?

A primeira pergunta a se fazer a Claudio, lógico, é: Paul deu entrevista para o livro? A resposta vem logo no começo da leitura. Claudio bateu um papo com Paul por telefone, em 2014, no mesmo dia de uma apresentação dele no Allianz Parque, em São Paulo. A entrevista na íntegra abre 'Masters'.

"Foram só dez minutos de papo, mas foi uma experiência eletrizante. Ele começou até um pouco frio, mas acho que ele foi percebendo que eu não era só um repórter. Eu estava com dúvidas que não eram apenas daquele show, queria relembrar coisas do show do Maracanã (primeira apresentação dele no Brasil, em 1990)", contra Dirani, que fez o papo para a rádio Alpha FM, onde trabalha. Ele só ficou meio incomodado com uma coisa. "Ele disse que ia tocar 'Silly Love Songs' em outro show, especialmente para mim, e não tocou", brinca.

ÍNDIOS DO BRASIL

Além do próprio protagonista do livro, Dirani conversou com colaboradores de Paul, como o engenheiro de som Robin Black. "Alguns eu achei até no Facebook", recorda. Graças a essas conversas e à pesquisa, é possível descobrir que vinte anos antes de Paul vir ao Brasil, o país já o havia inspirado. No primeiro disco, 'McCartney' (1970), havia um instrumental tribal chamado 'Kreen-Akrore', inspirado por um documentário sobre a tribo indígena Caiapó do Sul (ou krenakore), que mostrava uma expedição de Orlando e Claudio Villas-Boas à Floresta Amazônica. Paul viu o filme na televisão e quis reproduzi-lo em música. Comprou arco e flechas e espalhou microfones pelo estúdio para captar o som da flecha sendo disparada. E fez uma fogueira no estúdio só para gravar o barulho dos galhos arrebentando.

Na gravação do disco 'London Town' (1977), já com sua banda pós-Beatles, os Wings, o músico fez de tudo para criar o clima de um café parisiense em estúdio na hora de gravar 'Cafe On The Left Bank'.

E para 'Band On The Run' (1973), Paul encasquetou que deveriam gravar em Lagos, na Nigéria. Só que o cantor não sabia o quanto o país era violento na época. Ele e Linda foram assaltados e perderam as gravações que haviam feito para o disco - tiveram que refazer tudo. Mais: ao voltar para a Inglaterra, Paul deparou com um telegrama atrasado que dizia para ele não viajar porque havia um surto de cólera no país africano. Tarde demais, claro (mas vale dizer que nem Paul nem seus músicos pegaram doença alguma).

Dentre os cotados para entrevistas, um sonho de consumo de Dirani era Denny Laine, guitarrista que se tornou o principal parceiro de Paul nos Wings. "A gente vinha se falando por e-mail, mas depois ele disse que não ia me dar mais entrevista porque ia lançar uma autobiografia. Já tem treze anos que nos falamos e esse livro dele não saiu até hoje!", espanta-se. "Já o Robin foi bem legal de falar porque o primeiro disco do Paul era um negócio meio recluso, a quatro paredes".

LINDA

Não haveria como falar de Paul sem tocar em Beatles e em seu ex-parceiro John Lennon. 'Masters' começa com o final da banda, e com a parceria histórica se esfacelando. E com as entradas no cenário de Yoko Ono, mulher de Lennon, e Linda McCartney, que passou a tocar teclados com o marido.

"Linda foi muito importante para ele e foi muito criticada. Diziam que ela só estava lá porque ele queria. Mas ela foi importante musicalmente e também em outras coisas, porque ele queria fazer uma família. Paul fez até projetos infantis, que não sairiam se ele não tivesse tido filhos", diz.

Galeria de Fotos

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Autor do livro "Paul McCartney em discos e canções", Claudio Dirani Divulgação
Paul McCartney e Linda McCartney nos anos 1970 Reprodução
Paul McCartney no Allianz Parque, durante show em outubro (acima), e nos anos 1970, ao lado da mulher Linda McCartney, morta em 1998 AG News/Francisco Cepeda
Capa do livro "Paul McCartney em discos e sancões", de Claudio Dirani Divulgação

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