Após negociar com credores, Petrobras adia balanço de novo

Empresa prorroga para janeiro prazos para resgate antecipado de dívidas. Resultado do 3º tri de 2014 só será conhecido em 2015

Por O Dia

Rio - Em reunião de nove horas de duração, o Conselho de Administração da Petrobras decidiu prorrogar novamente a divulgação do balanço financeiro referente ao terceiro trimestre de 2014, sob suspeita após a deflagração da Operação Lava Jato, da Polícia Federal. Para isso, foram postergados prazos de divulgação combinados com credores da companhia, que previam o resgate antecipado de empréstimos em caso de atrasos superiores a 120 dias. Em comunicado enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a empresa anunciou medidas para a preservação do caixa, para reduzir a necessidade de novas captações.

Na tarde de sexta-feira, a companhia deu sinais de que não conseguiria divulgar seus resultados auditados ao fazer uma modificação em seu Formulário de Referência arquivado na CVM. O novo documento inclui uma tabela com prazos para vencimento antecipado de dívidas, em caso de não divulgação das informações financeiras, os chamados covenants (cláusulas contratuais de garantias para o credor). O prazo revisto por aditivo contratual refere-se à divulgação de balanço auditado, que passou para 120 dias após o fim do trimestre. Caso não seja divulgado até o fim do período, a empresa pode ter que pagar antecipadamente US$ 7 bilhões em dívidas. O contrato anterior previa um prazo máximo de 90 dias, que venceria no final do ano.

No comunicado enviado à CVM após a reunião, a empresa diz que a renegociação dos primeiros covenants possibilita a “apresentação das demonstrações contábeis do terceiro trimestre de 2014 não revisadas até esta data sem risco de declaração de vencimento antecipado da dívida pelos credores.” O balanço do segundo trimestre seria divulgado em meados de outubro, mas foi adiado devido à resistência da auditoria PricewaterhouseCoopers (PwC) em aprovar os dados, após a confirmação da existência de um esquema de corrupção em contratos da companhia.

Os outros covenants de dívidas mantém os prazos originais: 120 dias após o fim do trimestre para US$ 10,6 bilhões; e 150 dias para dívidas de US$ 22,7 bilhões. Para o balanço anual, há prazos de 120 dias após o fim do ano para dívidas de US$ 800 milhões e 180 dias para US$ 56,7 bilhões.

No documento, a estatal divulgou alguns dados financeiros não revisados “que não são afetadas pelos potenciais ajustes decorrentes” das investigações. Entre eles, estão a receita de vendas, que somou R$ 88,3 bilhões no terceiro trimestre; crescimento de 7% com relação ao trimestre anterior; e as disponibilidades de caixa, que cresceram 6% na mesma base de comparação, para R$ 70,2 bilhões. O fluxo de caixa da companhia foi positivo no trimestre, em R$ 4,25 bilhões, mas continua negativo no acumulado do ano, em R$ 9,1 bilhões.

Entre as medidas para tentar preservar o caixa, diz o texto, estão a antecipação de recebíveis, a redução do ritmo dos investimentos, a revisão de estratégias de preços de produtos e a redução de custos operacionais em atividades ainda não alcançadas pelos programas estruturantes, como o Programa de Otimização de Custos Operacionais da Petrobras (Procop), implantado no ano passado. “Essas ações asseguram fluxo de caixa livre positivo no próximo ano, considerando preços de petróleo em torno de US$ 70 por barril e taxa de câmbio em torno de R$ 2,60, e eliminam a necessidade de captações junto ao mercado no próximo ano”, diz o texto.

Um dos pontos mais fracos da empresa segundo analistas de mercado, o endividamento líquido subiu 8% entre o segundo e o terceiro trimestres, para R$ 261,4 bilhões, já sob o efeito de desvalorização cambial. Com R$ 233,6 bilhões de sua dívida atrelada ao dólar, a companhia deve enfrentar uma piora no indicador neste quarto trimestre, devido à aceleração do processo de depreciação cambial. No terceiro trimestre, a cotação média do dólar foi de R$ 2,27, bem abaixo do fechamento da última sexta-feira, de R$ 2,65. Por outro lado, o reajuste dos preços dos combustíveis no final de outubro pode melhorar a geração de caixa.