É um erro, do ponto de vista do funcionamento do governo, diz FHC sobre Lula

Com Lula no cargo, de acordo com ele, a administração do País vai sofrer

Por O Dia

São Paulo - A escolha do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva como ministro da Casa Civil no lugar de Jaques Wagner é um erro do ponto de vista do funcionamento do governo, na opinião do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. "Por aí não vai. Acho difícil. A Casa Civil no Brasil é responsável pelo comando da máquina administrativa não é da política. Precisa de alguém comandar para as coisas acontecerem. Colocar política (na Casa Civil) vai fazer uma confusão no Congresso que vai cobrar vantagens", avaliou ele, em evento, em São Paulo.

O ministro da Casa Civil, segundo FHC, é a pessoa que tem de "dizer não". Com Lula no cargo, de acordo com ele, a administração do País vai sofrer. "Do ponto de vista de como funciona o governo, é um erro. E é qualquer um. Não é o Lula. Pode ser eu. Ele vai fazer política. Não vamos sair desse círculo", avaliou o ex-presidente.

'Situação é desesperadora, mas País ainda não perdeu bonde da história'

O Brasil enfrenta uma situação financeira desesperadora diante das dificuldades econômicas, mas ainda não perdeu o bonde da história e tem a chance de se "reengatar" com as grandes decisões estratégicas globais, disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O País atravessa, segundo ele, um momento em que está sem crédito e sem confiança.

"Vai chegar o momento em que temos de fazer um acordo, mas não cambalacho, é um acordo social. Os economistas estão convergindo para cinco pontos centrais, mas o mesmo não ocorreu na área política", afirmou ele nesta quarta-feira, 16, durante evento, em São Paulo.

De acordo com o ex-presidente, muitos questionam as propostas que estão sendo discutidas, como o semiparlamentarismo. "Mas com este Congresso?", indagou.

Ao falar da crise que o País atravessa, principalmente nos campos político e ético, FHC disse que houve deterioração dos instrumentos de governabilidade. "Nosso sistema é presidencialista e o partido que governa não tem mais do que 20% (de apoio no Congresso), por isso precisa fazer coalizão", lembrou.

O tucano questionou ainda a maneira como a maioria (no Congresso) é aglutinada. E citou que Lula, ao fazer aliança com os pequenos partidos, em vez dos grandes, abriu espaço para o escândalo do mensalão. Para ele, é impossível governar assim, não só para a atual presidente (Dilma Rousseff), pois o Congresso está fragmentado.

"Vivemos um problema de situação econômica complicada, situação política difícil, crise moral, com delações de desvios de conduta. É uma organização como sistema, para obter vantagens para partidos. E a isso se soma à crise de liderança", destacou FHC.

Ele criticou as pedaladas fiscais do governo e disse que o Tesouro, na prática, quebrou, com aumento da dívida pública que caminha para chegar a 80% do Produto Interno Bruto (PIB).

"Este País tem potencial imenso, mas tem equívocos fundamentais embora tenha vantagem comparativa como terra e gente. A produtividade do setor agrícola cresceu, mas o Brasil tem problemas de infraestrutura. Dinheiro tem no mundo, só não vem porque falta confiança", destacou o ex-presidente.

FHC também criticou a aposta do governo atual em petróleo. Na visão dele, a Petrobras terá de ser capitalizada a qualquer momento como consequência de terem escolhido o caminho errado - que foi, segundo ele, fechar o pré-sal ao invés de implantarem regras mais restritas.

No início de sua palestra, ele reconheceu que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva avançou bastante na mobilidade social. E disse que isso foi graças ao período favorável que o mundo viveu até meados de 2008.

A partir daí, conforme ele, houve crise financeira grave, semelhante à crise de 29. Segundo FHC, o Brasil fez o contrário dos EUA, porque entendeu o cenário de maneira equivocada e usou a política de credito público e inventivo ao consumo, achando que tinha achado uma fórmula mágica - e não priorizou os investimentos.

O ex-presidente criticou ainda a transferência de recursos públicos para empresas, via BNDES, com taxas abaixo de valor de mercado.

Na avaliação de FHC, o País vive hoje os desdobramentos do processo da redemocratização. Segundo ele, acreditava-se que Brasil tinha descoberto um roteiro novo, quando a Constituição queria assegurar ampla maioria democrática e transformar a sociedade brasileira em uma sociedade com foco em educação e outras áreas de bem estar social.

"Foi um momento de certa euforia, mas havia um momento econômico complicado", lembrou ele, mencionando que a visão de mundo na época ainda era fechada.

Últimas de Brasil