Dias de vacas magras

Construtoras dizem que não recebem do governo federal há três meses. Pelo visto, o ajuste fiscal de Levy já começou

Por O Dia

Dizem os jornalistas americanos que a falta de notícias é, em si, uma boa notícia: “No news is good news”. Infelizmente, têm saído diariamente notícias sobre o desempenho da economia brasileira. E não são boas. Ontem mesmo, foi divulgado o índice IBC-BR, calculado pelo Banco Central, e mostrou que o Produto Interno Bruto encolheu 0,26% em outubro, em relação a setembro. Trata-se de uma prévia, que nem sempre é confirmada pelo número oficial do IBGE. De qualquer forma, os analistas do mercado financeiro ficaram surpresos com o resultado. Eles esperavam alta de 0,2% no mês. O Departamento de Estudos Econômicos do Bradesco, que é chefiado por Octávio de Barros, previa, por exemplo, um crescimento de 0,3% em outubro, “impulsionado pelas vendas do comércio varejista”. No acumulado de 12 meses,a economia também está claudicando. De outubro a outubro, ainda de acordo com a pesquisa do BC, o PIB não passou de 0,26%.

Diante do resultado decepcionante, não chega a surpreender outra notícia negativa: as principais instituições financeiras, que são ouvidas pelo BC na pesquisa Focus, reduziram para 0,16% as estimativas sobre o crescimento do PIB em 2014. Foi a quarta baixa seguida. Para 2015, a projeção caiu para 0,69%, na terceira queda consecutiva. Em relação ao dólar, as estimativas foram revistas para cima e agora conta-se com cotação acima de R$ 2,70 (ontem já atingiu R$ 2,68). As previsões para a inflação e a Selic no próximo ano não mudaram. Estima-se um IPCA de 6,38% este ano e em torno de 6,50% em 2015. Acredita-se principalmente no efeito das taxas de juros praticadas pelo Banco Central e também no sucesso das medidas que deverão ser adotadas pelo futuro ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Graças ao casamento da política monetária com o ajuste fiscal, acredita-se que a inflação começará a ceder até voltar para o centro da meta em 2016.

Na verdade, embora ainda não tenha tomado posse, cresce a cada dia a responsabilidade de Joaquim Levy. Hoje de manhã, por estranho que pareça, o futuro ministro vai comparecer diante da Comissão Mista de Orçamento para falar sobre as medidas de contenção que a equipe de transição está elaborando. Nunca se viu algo assim. Levy nem ministro é, mas já está recebendo convocação para se explicar no Parlamento. Obviamente, é grande a curiosidade sobre a verdadeira dimensão do corte que o economista da Universidade de Chicago vai aplicar aos gastos públicos no ano que vem. Quando ocupou a Secretaria do Tesouro no primeiro mandato de Lula, Levy ficou conhecido pela rigidez no trato do Orçamento. À frente da Secretaria da Fazenda do Rio de Janeiro, sua austeridade também chamou a atenção. O novo ministro costuma trancar o Tesouro a sete chaves.

E há no ar indicações de que a política de mão fechada de Levy está em vigor. Grandes construtoras envolvidas em obras do PAC, como a transposição do Rio São Francisco, reclamam de um calote do governo federal que sobe a R$ 15 bilhões. No Ministério da Fazenda, pedia-se que os interessados aguardassem a votação pelo Congresso da flexibilização da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias). O projeto passou na terça-feira da semana passada, mas nenhum pagamento foi liberado até agora. São três meses de atrasos, que também envolvem obras de rodovias e ferrovias. As construtoras dizem que não têm como pagar o 13° salário. Pelo visto, o ajuste fiscal já começou. E o remédio de Levy é amargo.

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