Um choque de realidade

O remédio de Levy é amargo, mas nada de pessimismo. 2015 mal começou. Ainda estamos em janeiro e o Carnaval vem aí

Por O Dia

Pode ser impressão de fim de férias ou então de quem passou alguns dias na Austrália, um país com padrão de vida de Primeiro Mundo, mas a sensação ao retomar a rotina é de que o Brasil desandou nestas primeiras semanas de janeiro. Não faltam motivos. Ainda repercute, por exemplo, um resultado vergonhoso do Enem: 500 mil jovens tiraram nota zero na redação. Mas a Educação é mazela antiga do país, dirão os mais conformados. Das balas perdidas e da violência que matou o surfista Ricardo dos Santos, o Ricardinho, não há muito o que falar. A Segurança pede urgência há muito tempo. Em outra frente, cresce o risco de racionamento de energia e de água. Novamente tudo vai depender de São Pedro ou da entidade superior, o próprio Deus, que é brasileiro, como nos garantiu o novo ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga.

Dá para entender por que a presidente Dilma Rousseff está em silêncio desde o fim do ano. O mar não está para peixe. Ontem mesmo, em almoço com investidores no Fórum Econômico de Davos, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, afirmou que, em razão do ajuste fiscal, o crescimento brasileiro será fraco em 2015 e previu que o ano será difícil. Antecipou também que o governo não pretende mais dar incentivos fiscais para tentar estimular a economia. Portanto, a aposta no consumo e no mercado interno pertence ao passado. A hora, agora, é de ajustar as contas públicas. Sob aplausos dos empresários, Levy assumiu compromisso com a maior transparência nas ações do governo. E deixou todos os presentes convencidos de que a receita da Fazenda é amarga, mas necessária.

Aqui na terrinha, porém, o recente pacote fiscal não tem o mesmo índice de aprovação. Ao contrário, o tema provoca forte polêmica. Até mesmo o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, entrou no debate. Para ele, ante a carga de impostos sofrida pelos brasileiros, qualquer aumento tributário é confisco. “O que eles (o governo) têm que fazer é enxugar a máquina administrativa, reduzir o gasto. Na sua casa, você gasta mais do que a receita? Não”, afirmou, ao comentar o pacote de Levy e o veto da presidente Dilma à correção da tabela do IR. A Confederação Nacional da Indústria reagiu no mesmo diapasão de Marco Aurélio. “Num momento em que o PIB da indústria cai, é mais razoável buscar colocar um peso maior no setor público, que mostra crescimento real de despesa de até 10% ao ano”, avaliou Flávio Castelo Branco, economista-chefe da entidade empresarial.

Mais incisivas foram as considerações do economista do IPEA, Mansueto Almeida, em seu blog. Surpreso com os aplausos do mercado financeiro às medidas de ajuste, ele diz que ainda não escutou ninguém falar da projeção menor de crescimento do PIB. E adverte: “Quanto mais próximo o governo chegar perto de 1% do PIB de primário, menor será o crescimento do PIB em 2015. Não é descartado crescimento do PIB negativo este ano”. Mansueto também ressalta que, “com o forte reajuste de preços administrados e com aumento de impostos, o risco de termos uma inflação de 7% em 2015 aumentou”. E deixa no ar uma pergunta que é quase um desafio: “No meio de tudo isso, quais as reformas do plano de governo do PT que apontam para um aumento da competitividade da indústria e da economia brasileira?”

Tudo bem, nada de pessimismo. 2015 mal começou. Ainda estamos em janeiro e o Carnaval vem aí.

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