Luiz Antonio Simas: O meu dia das crianças

Dia de igreja aberta, terreiro batendo, samba de roda, criança buscando doce, amigos matando saudades

Por O Dia

Rio - O Dia das Crianças no Brasil, 12 de outubro, foi criado em 1924, em projeto de lei proposto pela Câmara Federal e sancionado pelo presidente Arthur Bernardes. Ninguém deu muita pelota para a data, ignorada por mais de três décadas.

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Somente em 1960 a coisa mudou, quando uma fábrica de brinquedos aliou-se a uma multinacional de produtos de higiene para crianças e promoveu a Semana do Bebê Robusto, com incentivos de propaganda para troca de presentes, concurso de beleza infantil e outros salamaleques. Com o sucesso da empreitada, fabricantes de brinquedos resolveram divulgar o Dia das Crianças como uma data com potencial para aquecer as vendas. 

Não vejo a menor graça no dia estimulado por empresários de olho na grana. No meu calendário de afetos, a festa das crianças é a de Cosme e Damião, os médicos anargiros (inimigos do dinheiro, já que não cobravam consultas) martirizados durante a perseguição aos cristãos na antiguidade.
No Brasil de todos os encantamentos, deu-se o encontro entre os santos gêmeos do catolicismo e Ibeji — o orixá que protege as crianças e cuida para que o tempo não amargue nossas vidas. O sincretismo entre os santos católicos e o orixá africano transformou Cosme e Damião nos donos de todos os doces e carurus. Festa de Dois-Dois, conforme o povo.

A mistureba é tão bonita que no Brasil até Doum apareceu. Sabe quem é?
Entre os nagôs da Nigéria, Idowu é o nome dado à criança que nasce após o parto de gêmeos. Por aqui, o irmão mais novo dos gêmeos africanos virou Doum e passou também a ser cultuado nos fuzuês de Dois-Dois como o irmãozinho de Damião e Cosme.

A expectativa pela festa, na minha infância, era enorme. Minha avó distribuía doces no terreiro que comandava em Nova Iguaçu. O caruru de Cosme era servido com fartura, celebrando, ao som dos tambores, a alegria compartilhada com os erês. A meninada se entupia de suspiros, pirulitos, paçocas e cocadas.

Nos dias atuais, ainda que a festa continue bonita, vigora uma campanha de algumas igrejas neopentecostais contra a celebração. Os mais intolerantes do bonde da aleluia chegam a apavorar as crianças com o argumento fanático de que as guloseimas de Cosme são os doces do demônio.
Eu continuo driblando os intolerantes e celebrando com o meu filho o dia brasileiro dos santos estrangeiros e orixás africanos. Dia de igreja aberta, terreiro batendo, samba de roda, criança buscando doce, amigos matando saudades.

Um dia, como o de ontem, para comer caruru, louvar os médicos que não queriam dinheiro e celebrar, com a patota de Cosme, a vida.

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