João Pimentel: À deriva

Fiquei duas horas boiando e rezando. Será que só eu estava achando aquilo o fim do mundo?

Por O Dia

Rio - Eu deveria ter desconfiado desde o início. Meu companheiro de stand up paddle — aquele esporte em que remamos em pé sobre uma prancha — não é exatamente o que se pode chamar de um atleta. Alguns quilos a mais, um branco total radiante de sabão em pó, mas com uma qualidade indispensável: a vontade de vencer desafios. É preciso, antes de seguirmos na nossa aventura, ressaltar outra característica desse amigo, que depois da nossa saga implorou: “Faz a coluna, mas sem citar nomes.” Então vou atender ao pedido do Nuno Neto. Ops, falei. 

João Pimentel%3A À derivaReprodução Internet


Pois bem, esse meu querido amigo e parceiro musical tem o dom de se meter em incontáveis roubadas. Assim sendo, como já disse, eu deveria ter desconfiado do convite para fazermos uma travessia da Praia Vermelha até uma ilha que não sei sequer o nome. Acordo 8h no domingo e vejo uma ligação do Nuno, das três da matina. Claro, foi tocar na noite, não resistiu, bebeu uma cervejinha e as saideiras até que se lembrou do compromisso. Liguei na hora marcada e Renata, sua mulher, tocou a real: o cara estava emborcado tal e qual um Titanic.

Mas Nuno e sua cara amarrotada passaram lá em casa na hora marcada. Estacionar na Urca domingo de manhã é um martírio. Rodamos até avistarmos uma vaga próxima à mureta do Bar Urca. O motorista do carro que estava à frente adiantou um pouquinho o veículo e nosso piloto comentou: “Legal, alguém educado.” Não era bem isso. Sai do carro um tipo esquisito dizendo que o Nuno teria arranhado seu veículo, o que não era verdade. Quis tirar um dinheiro do meu amigo. Mas tirar dinheiro do meu amigo não é fácil.

Nada que diminuísse o ânimo dos dois gordinhos. Já na praia, nos juntamos ao grupo e pegamos nossas pranchas. Eram dois casais, uma moça com uma filha adolescente, uma senhora tipo turbinada e o Adílio. “É isso mesmo, nasci em 1981 e meu pai é flamenguista”, disse, ao se apresentar. Gostei. Já na ida o grupo foi se afastando e ficamos eu e Nuno remando sem sair do lugar. Um vento leste, segundo o nosso instrutor, veio repleto de rajadas e ondas. Condições ideais para um afogamento coletivo. Lá pelas tantas, uma lancha de resgate me leva para a tal ilha, onde os outros me esperavam orgulhosos. Nuno ficou esperando o resgate. Tanto esperou que passou mal e foi devolvido à praia.

Eu, que já estava com o grupo, pensei: “O que é um peixe para quem está afogado?” Resolvi não cortar o barato da turma e fiz cara de empolgado. As ondas batiam, as pessoas remavam, e o sol torrava meus miolos. Até que alguém deu a ideia: “Vamos subir na ilha!” Todo mundo gritou um ‘oba’. E eu gritei um ‘oba’ também. Um jovem com um caiaque levava as pessoas até a tal ilha, onde uma corda e uma pedra cheia de mariscos aguardavam o grupo. Diminuíram as chances de eu descer da minha prancha.

Fiquei duas horas boiando e rezando para ninguém se machucar. Será que só eu estava achando aquilo o fim do mundo? Depois de todos se arranharem felizes e a coroa turbinada quase rachar a cabeça na pedra, chegou a hora de retornarmos. Então, o nosso instrutor resolveu pescar mariscos.

Na volta, é claro, ninguém queria mais remar, e não cabia todo mundo na lancha, e o vento apertou, e as ondas cresceram ainda mais. Sobrou para mim o caiaque duplo, pesado, da mãe e da adolescente. Então eu recomeço o meu exercício terapêutico de remar sem sair do lugar, no meio de uma rota de navios, pronto para virar comida de tubarão. “Será que eu aguento a dentada?” Não aguentei e fui rebocado depois de mais de uma hora de travessia. Eu e todo mundo.

Exausto, torrado e salgado qual um amendoim, volto ao ponto de partida com a certeza de que nunca mais caio na conversa do Nuno. Pago os R$ 50 do passeio e, ao fundo, ouço o Adílio falar: “Na semana que vem tem mais.”

Últimas de Diversão