João Pimentel: O dia em que virei Praça

Um dia, chegando lá, recebi a maior e mais singela homenagem da minha vida

Por O Dia

Rio - Há umas duas semanas, conversando com os amigos Monarco e Guaracy em uma festa, soube da passagem do Marquinhos, da Casa da Mãe Joana, uma das figuras mais carinhosas e bacanas que tive o prazer de conhecer nas minhas andanças por aí. Muita gente quando se fala do revigoramento do samba no final da década de 90 esquece que, antes desse processo, havia raríssimos redutos pela Zona Sul — a Zona Norte é outra história —, onde se encontravam os sete cordas de Paulão, Carlinhos e Luiz Filipe, os cavaquinhos de Gallotti, Marcio Hulk e outros que faziam a festa de uma pequena legião de abnegados. As noites de terça no Mandrake, em Botafogo, e as de quarta no Sobrenatural, em Santa Teresa, marcaram época.

Mas a Casa da Mãe Joana também teve um papel fundamental de integração entre as duas partes da cidade. O Marquinhos, um delegado de polícia aposentado, levou para o sobrado da Rua São Cristóvão 73 a nata dos músicos do samba como o violonista Guaracy, o Seu Osmar, cavaquinho maior da Portela, o percussionista Visual e por aí vai. Nas sextas, a noite era por conta do Monarco e convidados. Ali acontecia de tudo. Vi Zé Renato lançando disco sobre o Zé Kéti, ganhei uma caneta de amigo oculto do Adelzon Alves, assei um tambaqui para a Velha Guarda da Portela e ganhei e perdi sambas de blocos. E tudo embalado pelas vozes de Guilherme de Brito, Wilson Moreira, Nei Lopes, Argemiro, Noca da Portela e tantos outros.

Mas tudo isso só aconteceu por conta da simpatia, da cabeça aberta e até da desorganização do Marquinhos. Nunca vi o amigo de mal com a vida, nunca vi ele destratar ninguém. Sempre me perguntei o que fez, alguma vez na vida, aquele sujeito numa delegacia.

Um dia, chegando lá, recebi a maior e mais singela homenagem da minha vida. Tinha uma placa numa pilastra central: “Praça Janjão”. Imagina, eu era um menino de vinte e poucos anos sem importância nenhuma. Mas para ele eu era importante e pronto. Muitos anos depois do fim da Casa da Mãe Joana, do nada, me aparece Marquinhos na redação com a tal placa embrulhada num papel de pão. “Janjão, essa é a última lembrança que eu tenho de lá”. Chorei.

Há alguns anos, ele tentou criar uma outra casa, o Tabuleiro da Baiana, mas a vizinhança de Botafogo não queria samba por ali. Fui convidado por um amigo, o Delorme, que estava na empreitada com ele. Quando eu cheguei lá, quem chorou foi o Marquinhos. Eu já não era mais aquele menino de tantos anos passados, mas para ele eu sempre iria ser aquele moleque que chegava mais cedo para ouvir suas histórias geniais, e que vez por outra amanhecia para uma saideira na Cadeg.

E como, para mim, a lembrança desse amigo vai ser sempre carinhosa e alegre, achei por bem aproveitar a minha centésima coluna para dar um beijo e lembrar daquela risada gostosa. Vai com Deus, amigo.

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