Luis Pimentel: Dorme com ele!

Ela acabara de sair do salão de beleza, o que se notava pela sobrancelha certinha, unhas nos trinques e o cheiro de laquê nos cabelos

Por O Dia

Rio - Encontrou a amiga numa farmácia da Barata Ribeiro, ali pertinho da Miguel Lemos. Ela acabara de sair do salão de beleza, o que se notava pela sobrancelha certinha, unhas nos trinques e o cheiro de laquê nos cabelos (aliás, ainda existe laquê?).

Estava mudada. Bem diferente da pessoa meio sorumbática, eterno ar de mal amada que ele costumava encontrar nos últimos tempos. A amiga era casada; ele fez o que se costuma fazer nesses casos:

— E o maridão, como vai?

— Morreu, graças a Deus!

O baque foi profundo, fez com que recuasse. Recuou tanto, que quase foi atropelado pelo motoqueiro que

— como sempre acontece no bairro em hora de trânsito engarrafado — trafegava a mil pela calçada.

— Como assim, morreu?!

— Morreu morrendo! Bateu as botas, viajou pra cidade de pé juntos, o Zé Maria chamou, cantou pra subir...

— Mas ele estava doente?

— Não. Graças a Deus não. Foi de uma hora para outra. Felizmente, porque assim não tive que aturar marido enfermo em casa, tendo que levar para médicos e hospitais, dar remedinho, esquentar sopa, botar pra pegar sol, acompanhar pra fazer xixi.

— Meus sentimentos...

— Sinta não, sinta não, nem vale a pena!

— Bom... ele descansou, não é?

— Espero que não! Se houver justiça também lá em cima, aquele traste não descansou nem vai descansar. Vai dar muita cabeçada no umbral do astral, por conta do descanso que jamais me permitiu gozar.
Estava cada vez mais impressionado. Não com a morte, pois já aprendera a conviver com surpresas. Mas com a frieza da viúva. Ainda assim, arriscou:

— Mas... e você... está bem?

— Ótima! Afinal, me livrei de um fardo, né?

— Não está sofrendo?!

— Sofrendo?! Olha pra mim, meu amigo! Vê se estou com cara de sofredora! Dá uma olhada no material, no invólucro, na decoração. Vê se acha aqui alguma coisa cheirando a sofrimento.

— Bom... realmente... não está.

— Ficou chocado, não foi? Sei como é!

— Pois é... sempre imaginei que o seu marido... o falecido... o dito cujo, sei lá como é que você o chama agora... fosse um companheirão para você, um cara verdadeiramente legal.

— Claro. Compreendo. Sei como é que é. Muitos amigos, amigas e parentes daquele infeliz também achavam. Mas é que vocês nunca dormiram com ele.

Depois dessa, preferiu dar o assunto por encerrado. É que aí, realmente, não há como argumentar.

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