Coldplay se apoia em cores e efeitos e entrega show morno no Maracanã

Banda tocou para um estádio lotado na noite deste domingo, com direito a pedidos de casamento no palco

Por O Dia

Rio - Quem fala demais, já diz a máxima, não tem nada a dizer. Os ingleses do Coldplay tocaram seu pop-rock para um Maracanã lotado, na noite deste domingo, seguindo o dito praticamente à risca. O repertório, calcado principalmente no fraco 'A head full of dreams', lançado no ano passado, apresentou (poucos) bons momentos e se apoiou em (muitas) cores e efeitos visuais, que tentaram disfarçar a evidente debilidade da maioria das 23 canções do show — a quarta passagem dos britânicos pelo Rio e a quinta pelo Brasil. 

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Chris Martin, vocalista do ColdplayStaff Images / Maracanã

A abertura, que usa parte do monólogo de Charlie Chaplin em 'O Grande Ditador' para apresentar o quarteto e a faixa-título do último disco, impressiona. Apagado, o estádio se ilumina de vermelho com as pulseiras entregues ao público na entrada do show e, no momento em que as luzes se acendem, fogos anunciam a primeira sílaba cantada por Chris Martin. Ao término do refrão, os adereços briham sincronizados, o que se repetiria por algumas vezes ao longo da noite. Antes do fim da música, mais fogos e pó colorido em cima da plateia. E era só a primeira.

A clássica 'Yellow' ajuda a manter o espírito de jogo ganho. Balões da mesma cor, claro, moldam o clima de um dos grandes hits do grupo. "Olá, meus amigos. É muito bom estar de volta ao Rio", disse um simpático Martin em bom português, para delírio do público. 'Every teardrop is a waterfall' vem na sequência e não deixa a peteca cair, com chuva de papel picado para os fãs. A bela 'The scientist' conduziu o público pela mão em um coro massivo de 66 mil vozes. Bonito de se ver e ouvir. 'Birds' uma das novas, diminuiu o ritmo, logo recuperado em 'Paradise', momento em que o show entrou em montanha russa.

Com um novo final no mínimo constrangedor, que apela para batidas eletrônicas repetitivas, a música transformou o Maracanã em uma rave de um minuto. Foi a senha para Martin e companhia se dirigirem à passarela que ligava o palco principal a um círculo menor, entre as pistas premium e normal. No espaço, as insossas 'Everglow' e 'Princess of China' (com participação virtual de Rihanna), além da minimalista 'Magic', foram tocadas. Esta, sem qualquer jogo de cena, foi reverenciada à altura.

Show no Maracanã se apoiou em cores e efeitos e teve até pedido de casamentoStaff Images / Maracanã

De volta ao palco principal, o Coldplay mostrou os hits 'Clocks' e 'Charlie Brown' e a maçante 'Hymn for the weekend', que nem o talento de Beyoncé, também em participação gravada, conseguiu salvar. Desta vez, papeis picados e o pó multicolorido não deram conta de esconder a falta de inspiração. 'Fix you', uma das clássicas de longa data, ganhou nova introdução que amplificou seu final. A versão da banda para o clássico de David Bowie, falecido em janeiro deste ano, merecia melhor atenção. ''Heroes'' passou batida pelo público, a esta altura mais preocupado em fazer selfies e vídeos para o Snapchat.

O hit 'Viva la vida', com seus 'ôôôôôs' entoados antes do quarteto começar a tocar, despertou os presentes e 'Adenture of a lifetime', que jogou bolas coloridas (!) no público, ajudou a manter o clima de felicidade de comercial de margarina. Para o bis e troca de palco, desta vez mais perto das arquibancadas e de parte da pista comum, Martin e companhia tocaram em formato acústico as bonitas 'Parachutes', 'Shiver' e, por pedido dos fãs via web, 'A message'. Curiosamente, foram esses os momentos mais contundentes em 2h de música.

Coldplay fez show para Maracanã lotado neste domingoFoto%3A Staff Images / Maracanã

No encerramento, a balada sem graça 'Amazing day' foi parar na eletrônica 'A sky full of stars' (um doce para quem adivinhar a cor das pulseiras e, sim, mais rave), que fez Martin pedir a seus colegas que a música parasse e trazer casais ao palco para pedidos de casamento. Ao fim, pela encenação, houve um abraço coletivo em círculo. 'Up and up' terminou os trabalhos repetindo o mantra de que é possível ter esperança em situações limite.

Música deveria ser sobre ouvir e gerar um sem número de sensações, a cargo de quem ouve. Quando até uma canção de 3 minutos se transforma em puro espetáculo, perde-se a capacidade de provocação e até mesmo diversão. Sobram as pulseiras.

Avaliação: regular

Shows de abertura

A inglesa Lianne La Havas soube usar o pouco tempo de sua apresentação para cativar o público. Metade das canções, do ótimo Blood (2015), ajudaram a fazer o meio de campo para o golaço na cover de 'I say a little prayer', famosa na voz de Aretha Franklin. Multi-instrumentista e dona de uma voz potente, La Havas mostrou segurança em tocar para um Maracanã parcialmente lotado, burilando referências que vão do soul ao reggae. Vale acompanhar os próximos passos da moça e torcer por outro show no Rio. 

Com três álbuns na bagagem, a paulistana Tiê abriu a noite passeando por sua discografia plural em boas músicas como a pop 'Vou atrás', a country 'Botas' e a roqueira 'Isqueiro azul'. Carismática, a cantora transitou facilmente entre os temas, apoiada por uma ótima banda. O público, no entanto, só se rendeu no último número. 'A noite (La notte)', que foi tema da novela 'I Love Paraisópolis', da TV Globo, provocou catarse e rendeu a primeira filmagem em massa no estádio. Ponto para Tiê.


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