União contra a crise

Modelo conhecido como 'store in store' reúne lojas para o mesmo público no mesmo espaço, reduzindo os gastos e aumentando a clientela

Por O Dia

Rio - Imagine o cliente que sai de uma barbearia não só com a barba feita, mas com blusa nova e uma tatuagem. Ou um outro espaço onde uma mulher entra numa loja à procura de lingeries e também encontra uma garrafa de vinho à venda. Ou, ainda, um espaço onde há atendimento de fisioterapia, psicologia perinatal e até nutricionista para gestantes. Do espaço físico à conta de luz no fim do mês, empresários estão se unindo para manter competitividade em torno de um modelo de negócios conhecido como ‘store in store’ — loja dentro da loja, numa tradução livre do inglês para o português.

Espaço também passou a abrigar um estúdio de tatuagem%2C atendendo uma demanda dos clientesDivulgação

Muitos dos que adotaram a prática não se arrependem e afirmam que ela tem sido um meio eficaz para combater a crise. Rodrigo Guimarães, sócio-proprietário do Club Men Salon, rede de barbearias com cinco filiais na cidade, é um deles. “Quando percebi espaço ocioso na loja do bairro Valqueire, pensei em incorporar o serviço de uma outra empresa que dialogasse com o meu público”. Mas que tipo de serviço?

A resposta veio com a observação do comportamento da clientela: “Percebi que quase todos eles tinham tatuagem e propus parceria à Konklave (estúdio de tatuagem)”, conta Rodrigo, que também colocou araras com roupas da Le Jones em todas as lojas da rede de barbearias. A redução dos custos tem impacto imediato. “Em relação à Konklave, nós fizemos o seguinte cálculo: de acordo com a área que eles ocupam nas lojas, estipulamos a porcentagem correspondente no pagamento das contas de luz, água e do IPTU. Com a Le Jones, recebemos uma pequena parte das vendas”, revela.

Além de impactar nas despesas, o modelo ‘store in store’ pode aumentar a visibilidade das marcas, principalmente quando as empresas envolvidas atingem públicos semelhantes. É o caso da Favorita, loja de móveis planejados, e da Casual Tecnologia, dedicada à venda e instalação de home theater. “O cliente que for à Favorita procurando por móveis pode ver o espaço da Casual e se interessar por um home theater também, e vice-versa”, diz José Flor, proprietário da Casual Tecnologia, que conta com um showroom dentro da loja da Favorita, na Barra da Tijuca.

Espaço voltado a gestantes reúne profissionais de saúde na BarraDivulgação

Casos de sucesso se repetem. Um dos exemplos é o da personal gestante Roberta Gabriel. Ela passou a dar aulas no Espaço Mater Luz, que oferece serviços desde a preparação para o parto à musicalização para bebês.

O casal Leandro Segall e Mariana Mallet Segall encontrou a solução para a crise na própria crise. Quando Leandro perdeu o emprego, Mariana abriu um espaço em sua loja para que o companheiro investisse numa de suas maiores paixões: o vinho. As garrafas passaram a compartilhar o mesmo espaço das roupas íntimas, no estabelecimento da Barra. Outra empresa que incorporou um negócio semelhante foi o restaurante Sano, no Casa Shopping, onde hoje está o Espaço Café.

Solução de crise

O modelo ‘store in store’ também tem sido comum na área de franquias. Presidente da Associação Brasileira de Franchising (ABF-Rio), Beto Filho afirma que a prática funciona hoje como solução de crise. “Ao dividir o espaço da loja com um parceiro, o empresário consegue reduzir os custos de manutenção e ainda aumentar o alcance da sua marca, pois o cliente do parceiro provavelmente terá interesse em seu produto”, avalia.

Em relação às parcerias entre marcas, Beto Filho conta que os casos mais comuns acontecem no setor de gastronomia e vestuário. Mas ele acredita que a tendência é que os casos se diversifiquem. “Recentemente, prestei consultoria para uma sex shop que vende seus produtos em máquinas como aquelas em que a gente põe o dinheiro e o produto cai. Nesse caso, que parceria poderia ser interessante? Pensamos em manicures, salões de beleza e outros espaços só para mulheres. Assim, elas ficariam à vontade para comprar”, acredita.

Loja de móveis planejados estabeleceu uma parceria com empresa de instalação de home theaterDivulgação

Por dentro do assunto

O modelo ‘store in store’ é atraente para o cliente, pois ele pode ir a um local em busca de um determinado produto e encontrar outro que também o interesse. Assim, as empresas atraem compradores umas para as outras.

Para que a parceria seja vantajosa, é importante que o público-alvo seja semelhante. Nesse movimento, o ponto comercial é valorizado, já que passa a oferecer serviços variados num mesmo endereço.

Nos shoppings centers espalhados pelo país, são exemplos de ‘store in store’ os quiosques nos corredores, situação cada vez mais comum nesses centros comerciais. Outros exemplos estão nos grandes condomínios e nos prédios empresariais. Muitos deles compartilham espaços com empresas, especialmente do setor de alimentação.

Reportagem de Bernardo Costa

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