Papéis de ensino sobem na contramão da Bovespa

Uma combinação de fatores macroeconômicos favoráveis, como emprego e renda, e programas de subsídios à educação impulsionou as empresas privadas de ensino superior do país

Por O Dia

Rio - Num cenário de turbulência, em que o Ibovespa acumulava até quinta-feira valorização de 0,10% no ano, o segmento de educação desponta como tábua de salvação para investidores aflitos com o desempenho da economia brasileira. O descolamento em relação ao PIB de papéis como os da Kroton Educacional (+50,6% de valorização no ano) e da Gaec Educação (+39,6%) reflete — segundo especialistas — uma conjuntura favorável de emprego, renda e incentivos governamentais que tende a se manter no médio prazo, beneficiando as instituições privadas de ensino superior.

Das cinco empresas listadas na bolsa brasileira no segmento de serviços educacionais, quatro apresentavam até ontem valorização no ano. Além de Kroton e Gaec, também acumulavam resultados positivos no ano Estácio Participações (+36,4%) e Anhanguera Educacional Participações (+12,9%). A exceção no segmento era a Ser Educacional, que acumulava perda de 2,8% no ano até ontem. “Os drivers (fatores) que impulsionam o setor estão muito estáveis. Há uma perspectiva de continuidade no longo prazo. Temos pelo menos cinco anos de demanda forte pela frente”, afirma Mário Bernardes Júnior, analista do BB Investimentos.

Somados a fatores macroeconômicos, como baixo desemprego e renda mais elevada, os incentivos governamentais tem se mostrados decisivos para alavancar o ensino superior privado, sustenta Júnior. Só o total de contratações pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) somava 1,59 milhão até 30 de maio deste ano, de acordo com dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) compilados a partir de 2010. Já o Prouni, criado pelo governo federal em 2004, soma 1,4 milhão de estudantes beneficiados — só no segundo semestre do ano passado foram ofertadas 90 mil bolsas. “Apenas 18% da base de estudantes universitários existente no país está vinculada a programas do governo, como o Fies e o Prouni. Para 2022, a meta é chegar a 35%, percentual similar ao de países desenvolvidos”, diz Claudio Duhau, analista da Ativa Corretora para o segmento de educação. De acordo com dados do Ministério da Educação, havia no país ao fim de 2012 cerca de sete milhões de matrículas em cursos de graduação universitária. “A base potencial é de 35 milhões de estudantes”, estima Duhau.

Embora a demanda reprimida esteja longe de ser atendida, o país ainda enfrenta as limitações decorrentes do gargalo representado pelo ensino médio. “Enquanto a taxa média de matrícula é de mais de 90% no ensino básico, no médio está um pouco acima de 50%”, compara Fernando Holanda Barbosa Filho, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “Não estamos conseguindo fazer as pessoas ficarem no ensino médio.”

Apesar dos obstáculos, o economista acredita que a demanda pelo ensino superior continuará aquecida. Isso porque a graduação universitária, além de ampliar a renda do recém-formado, diminui suas chances de ficar desempregado. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) citados por Barbosa Filho indicam que, em 2012, a taxa de desemprego era de 9,5% para a fatia da população economicamente ativa que tinha apenas o ensino fundamental completo. Para quem havia concluído o ensino médio, o percentual era de 6,8%. E, entre os brasileiros com curso superior completo, o desemprego caía para 3,4%.

Além de ampliar a empregabilidade, o diploma universitário impulsiona a renda do recém-formado de uma forma que torna os cursos superiores um produto rentável para as instituições privadas. “Nos países-membros da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o salário de um universitário que acaba de se formar aumenta, em média, 150% em relação ao salário mínimo”, afirma Duhau, da Ativa. “No Brasil, o crescimento é de 250%. Essa diferença de cem pontos percentuais é muito importante quando o estudante vai repagar o dinheiro dos incentivos que recebeu do governo”. Outro atrativo para as empresas está no fato de os programas governamentais reduzirem drasticamente a inadimplência e a evasão de alunos, o que na prática significa mais rentabilidade. Os incentivos voltados para custear os cursos superiores diminuem, também, a dependência das universidades privadas em relação ao cenário macroeconômico brasileiro, acrescenta Duhau. Única companhia de serviços educacionais com papéis em queda neste ano na bolsa brasileira, a Ser foi punida — segundo Júnior, do BB Investimentos — por demorar a entregar os resultados previstos no plano estratégico de crescimento divulgado como parte de seu IPO (processo de abertura de capital).

Presidente do instituto de pesquisa Data Popular, Renato Meirelles destaca a importância da ascensão econômica da nova classe média para o mercado educacional brasileiro. “As famílias da classe média já representam 54% dos brasileiros e movimentam R$ 1,17 trilhão por ano. Eles passaram a perceber que podiam ter acesso a bens serviços antes distantes da realidade, inclusive educação. O jovem da classe média já é mais escolarizado que seus pais, e é frequente encontrar jovens que são a primeira geração de universitários da família”, diz.

Últimas de _legado_Notícia