Copa está longe de ser a solução para a economia do Brasil, segundo Euromonitor

Pequisa da empresa britânica indica que Mundial terá efeito limitado sobre o país, mas com reflexos positivos sobre emprego, turismo e serviços de alimentação

Por O Dia

Rio - Os gastos e investimentos relacionados à Copa do Mundo terão efeito limitado sobre a economia brasileira, com avanço temporário no nível de emprego e nas atividades do setor de serviços. A conclusão é da empresa britânica de pesquisa global Euromonitor International, que divulgou relatório sobre o ambiente de negócios e consumo no Brasil, com trechos dedicados a analisar os impactos do Mundial sobre o país.

Pelas estimativas da Euromonitor 3,63 milhões de empregos serão criados, mas a maioria deles é temporária (com um ano de duração) e espalhados por um horizonte de tempo de tempo de cinco anos. “A receita total do torneio é também uma gota no oceano em comparação com o PIB de um país do tamanho do Brasil”, justifica Sarah Boumphrey, analista-chefe de Países e Consumidores da Euromonitor, na Inglaterra.

O volume de empregos gerados em função do Mundial representa apenas 3,33% da força de trabalho brasileira, estimada em 109 milhões para 2014. “Isso não quer dizer que alguns setores não receberão um impulso. Eles vão receber, mas, novamente, é provável que seja temporário”, acrescenta Sarah, ressaltando que alguns dos ganhos foram incorporados ao PIB em anos anteriores. Como exemplo, ela lembra que grande parte das construções foiconcluída antes de 2014.

Com relação ao turismo, as chegadas internacionais devem aumentar 10,1% neste ano, alcançando o patamar recorde de 6,5 milhões de visitantes, segundo projeção da Euromonitor. A expectativa é de que as despesas com turismo cresçam 5,8% em termos reais em 2014. Pelas projeções, as despesas com turismo alcançariam neste ano uma fatia de 2,7% do produto interno bruto, o que representaria um acréscimo de apenas 0,1 ponto percentual em relação a 2013.

A título de comparação, o levantamento da Euromonitor informa que, nas Olimpíadas de Londres, em 2012, o efeito dos jogos sobre o fluxo de turistas foi negativo, no cômputo geral, de acordo com relatório do Instituto Nacional de Estatística (ONS, na sigla em inglês). Houve incremento nos gastos dos turistas, mas as chegadas diminuíram por conta dos visitantes que evitaram o Reino Unido para fugir da agitação provocada pelos Jogos Olímpicos. O chamado “efeito deslocamento” dificilmente vai se repetir no Brasil. “Efeitos de deslocamento são mais propensos a acontecer como resultado de Jogos Olímpicos, em vez de Mundiais da Fifa”, explica Alexis Frick, analista de pesquisa da Euromonitor. “A razão mais óbvia para isso é que as Olimpíadas são um evento muito mais concentrado geograficamente que uma Copa do Mundo. No Brasil, temos 12 cidades-sede e, mesmo assim, há muitas atrações turísticas importantes que não estão localizadas nessas regiões, como Florianópolis, o centro histórico de Olinda e as Cataratas do Iguaçu, entre outras”. Além disso, a maior parte dos turistas estrangeiros visita o país durante o verão, argumenta Frick.

O Instituto Nacional de Estatística também encontrou evidências de uma queda nas vendas online durante o período das competições, já que os consumidores gastaram tempo assistindo à cobertura esportiva. “Não estamos prevendo uma diminuição nos gastos online em 2014 no Brasil, e sim um forte crescimento de 13,4% em termos reais”, frisa Sarah Boumphrey. Como o mercado varejista online do Reino Unido se encontra num estágio muito mais avançado que o brasileiro, cresce num ritmo mais lento. E, em 2012, as vendas totais no varejo estavam em declínio no Reino Unido, recorda Sarah.

Embora não projete qualquer impacto da Copa do Mundo no setor de manufatura, a Euromonitor estima para este ano uma expansão de 5,9% no segmento de serviços de alimentação, em termos reais, na comparação com 2013. Dentro desse cenário, os principais beneficiados seriam os grandes players do mercado, como McDonald’s, Al Saraiva Empreendimentos (Habib’s), Brasil Fast Food Corp (principalmente para Bob’s, KFC e Doggis) e Subway, além de Anheuser-Busch InBev NV (com destaque para o Burger King e o chope da Brahma) e Restpar Alimentos (Giraffa’s).

Economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marcel Balassiano lembra que foram gastos R$ 8 bilhões na construção ou reforma de estádios para a Copa, de acordo com dados do Ministério dos Esportes. “Esse valor, apesar de ser alto em número absoluto, não representa muita coisa em proporção do PIB: apenas 0,2%, em valores de 2013”, diz Balassiano. Somados aos gastos com infraestrutura, que foram de R$ 17,6 bilhões, a conta total chega a R$ 25,6 bilhões, o equivalente a 0,5% do produto interno bruto.

O economista ressalta ainda que a Copa do Mundo pode impactar os preços. “A inflação, que já está alta, em grande parte pela inflação de serviços (8,7% em 12 meses em maio), pode ter um aumento maior ainda em função da Copa do Mundo, já que, com o evento esportivo, setores como restaurantes, hotéis, transportes, entre outros itens que fazem parte dos serviços, podem ter aumento de preços”, justifica.

Brasil deve superar França e Reino Unido

Apesar do ritmo lento de expansão da economia brasileira e da inflação alta, as perspectivas para o mercado consumidor brasileiro continuam positivas na visão da Euromonitor. Em 2023, o Brasil deverá se transformar no 5º maior mercado consumidor do mundo, ultrapassando França e Reino Unido, conforme indicam projeções da empresa. Em 2030, os gastos totais dos consumidores brasileiros deverão alcançar o patamar de US$ 2,7 trilhões. “O setor que esperamos que cresça mais entre 2014 e 2023 é o de comunicações: deverá se expandir 62,7% em termos reais ao longo do período”, diz An Hodgson, gerente da Página de Tópicos relacionados a Países e Consumidores na Euromonitor International. No ranking de setores com maior crescimento aparecem ainda artigos de saúde e serviços médicos (60,6%), educação (54,9%) e bens e serviços domésticos (54,5%).

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