Prêmio inédito em Cannes para documentário sobre Allende

É possível que 'Allende mi Abuelo Allende' não tenha sido o melhor documentário exibido. Por seu retrato íntimo, ele está mais para um diário, o que contribuiu para sua singularidade

Por O Dia

A grande novidade de Cannes 2015 não desfilou pelo tapete vermelho da mostra competitiva, que este ano distribuiu os principais prêmios para os franceses, deixando a Itália a ver navios. “Allende mi Abuelo Allende”, exibido na Quinzena dos Realizadores, mostra voltada para cinéfilos, estabeleceu o ponto fora da curva que sempre se espera de algum filme em Cannes.

Além da Quinzena, o filme concorreu ao prêmio L’Oeil D’Or, pela primeira vez concedido ao melhor documentário exibido em todas as mostras. A disputa incluiu filmes imponentes, dedicados a nomes como Steve Mcqueen, Orson Welles, Hitchcok/Truffaut, Ingrid Bergman, Gerard Depardieu e Sidney Lumet. Mas foi a visão familiar sobre o único Presidente declaradamente marxista que seduziu o júri presidido pelo franco-cambojano Rithy Pahn e que contava, entre outros, com a presença da atriz Irene Jacob.

É possível que “Allende mi Abuelo Allende” não tenha sido o melhor documentário exibido. Por seu retrato íntimo, ele está mais para um diário, o que contribuiu para sua singularidade diante da concorrência.

Marcia A. Timbutti, a cineasta neta de Allende, resolveu, depois de 30 anos, mexer no baú da memória familiar, tabu para netos, primos e filhos.

A chave para abrir o segredo é a avó Hortensia Busi de Allende, já falecida, uma lúcida nonagenária ainda viva durante a filmagem. É em torno dela que Marcia perscruta uma visão mais humana do avô, tentando saber como ele era em casa, nos momentos de lazer, revirando a imagem do mito gravada em cartazes.

As revelações não servem apenas para aumentar a dimensão mitológica de Allende, visto no filme como um homem comum, brincalhão na intimidade e fraterno com os entes mais próximos. Allende é descrito também como um sedutor, mulherengo, num depoimento que a diretora consegue extrair em entrevista comovente da avó, conduzida pelo fio da ternura e da delicadeza, como as realizadas com os demais parentes.

O reencontro amoroso com o avô desvia-se de comentários políticos mais agudos e se sobressai ao apenas mostrar como a violência ditatorial pode esfacelar uma família e magoar de forma quase definitiva a memória dos laços familiares, traumatizada pelo suicídio de Allende e de uma de suas filhas. Um filme que mostra a indissolúvel relação entre amor e liberdade e um prêmio além do glamour.

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