Serviços mais caros ameaçam emprego

Comida fora de casa, salões de beleza, cinema e conserto de eletrodomésticos sobem até 28,88% e espantam a clientela

Por O Dia

Rio - Quem almoça todos os dias fora de casa, vai ao salão de beleza toda semana ou conta com a ajuda de diarista sentiu o orçamento ficar mais apertado no ano passado. Os custos dos serviços subiram em média 12,62%, acima da inflação do período, que foi de 6,41%. Sendo que para algumas atividades, como shows musicais, chegaram a 28,88%. Ao mesmo tempo, o segmento teve os piores resultados nas séries históricas. E a preocupação agora é que o cenário provoque crise no mercado de trabalho, já que o setor é o que mais emprega no Brasil.

Segundo a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), divulgada na quinta-feira pelo IBGE, a receita nominal do segmento registrou em novembro de 2014 alta de 3,7% se comparada ao mesmo mês de 2013. O movimento representa desaceleração em relação à variação anual em outubro (5,2%). Além disso, o crescimento da receita em novembro foi o menor desde 2012.

Nilsa Chaves faz as unhas toda a semana e lamentou os aumentos%3A 'Vai pesar no meu orçamento'João Laet / Agência O Dia

Para a Confederação Nacional do Comércio (CNC), essa perda de fôlego no setor de serviços resulta em preocupações no mercado de trabalho. O segmento é responsável por 42% da mão de obra formal do país.

“Segundo o último Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o setor de serviços foi o que mais cresceu em termos de emprego em 2014. Esse parece um dado bom, mas na verdade não é tão favorável. Acontece que a quantidade de vagas abertas no setor foi a menor desde 2002. Isso é preocupante porque o setor de serviços é o que mais emprega no Brasil. Se começar a perder força, vai prejudicar todos os outros segmentos, como o comércio e a indústria”, avalia Fabio Bentes, economista da CNC.

Informações do Caged divulgadas na sexta-feira mostram que foram criados novos 476.108 empregos no setor de serviços em 2014 (entre formais e temporários), 2,83% a mais que em 2013. No ano anterior, foram 546.917 novas chances, 3,37% a mais que em 2012.

Proprietária do salão Beleza da Lapa, Silvia Regina Borges afirma que ainda não reajustou os preços com medo de perder clientela. “Tem gente que vem aqui toda a semana, então qualquer aumento impacta no orçamento. As pessoas estão controlando os gastos, se encarecermos o serviço, podemos perder os clientes. Agora não é momento de mexer nos preços, mas de fazer promoções”, explica.

Porém, segundo dados do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), nem todos pensam como Silvia. A pesquisa mostra que o setor de serviços acumulou alta de 12,62% em 2014, acima da inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O segmento também teve variação maior que o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) registrado no Rio neste mesmo período, de 9,01%.

As refeições em bares e restaurantes estão entre os serviços do dia a dia que mais sofreram aumento (12,75%). A cerveja do fim de semana também ficou mais cara (14,83%), assim como o cinema (6,61%) e os shows musicais (28,88%). Quem frequenta salões de beleza também está tendo que desembolsar 15,86% a mais. E para manter a casa arrumada, as diaristas estão cobrando 13,56% a mais, enquanto as mensalistas tiveram aumento de médio de 11,58%.

Criação de vagas diminui 64,4%

O Brasil gerou 396.933 novos empregos com carteira assinada em 2014, um recuo de 64,4% em relação às 1.117.717 chances abertas em 2013, segundo o Caged divulgado na sexta-feira. Este é o pior resultado desde 1998, quando o governo Fernando Henrique criou 387.207 mil vagas.

Com as novas vagas, o total de empregos foi elevado em 1% de 2013 para 2014. “Em termos reais, apareceram no ritmo em que a população cresce”, avalia o economista Fabio Bentes, da CNC.

Serviços que ficaram mais caros em 2014Arte O Dia
Serviços que ficaram mais caros em 2014Arte O Dia

Apesar dos números em declínio, o ministro do Trabalho, Manoel Dias, comemora. Segundo informe publicado no site do ministério, o “Brasil vive o pleno emprego, com regiões onde a taxa de desemprego está abaixo dos 3%, caso do Rio de Janeiro e de Santa Catarina. Em 2015, como os prognósticos da economia são mais positivos que em 2014, acreditamos que vamos continuar gerando empregos”.
No entanto, na avaliação de Bentes, a sensação de pleno emprego só ocorre porque muitas pessoas deixaram de buscar ocupação. “O aumento de salário decorrente do trabalho está muito difícil, então muitos deixam de procurar emprego para voltar a estudar e tentar se inserir no mercado ganhando mais, em função da capacitação”, explica.

O salário de admissão teve aumento real na casa de 0,92%, se levado em consideração os valores médios e o INPC (Índice oficial do IBGE que corrige os salários).

Só em dezembro foram fechadas 555 mil vagas, pior resultado desde 2008. Os setores com pior desempenho foram a indústria, com 171 mil postos a menos, a construção civil, com 132 mil a menos, e serviços: 148 mil postos a menos.

Segundo o estudo, o maior volume de demissões ocorreu em São Paulo, seguido de Minas Gerais e do Paraná.
CAGED

Pesquisa de preços ajuda a escapar dos aumentos

Economista do Ibre/FGV, André Braz explica que esses aumentos não são sazonais e, por isso, já podem ser sentidos no bolso do consumidor. “Principalmente porque estão acima da inflação, então o efeito é mais forte”, avalia o especialista.

A fonoaudióloga Nilsa Chaves, 59 anos, faz as unhas toda semana em um salão de beleza e também retoca a tintura dos cabelos a cada 15 dias. Para ela, a alta nos preços tem um impacto forte no orçamento. “Eu costumava frequentar um salão em Laranjeiras, mas mudei para outro na Lapa, pois percebi que é muito mais barato. Procuro pesquisar até encontrar os melhores preços”, conta.

Já o taxista Hanry Nicodemos, 46, sentiu o impacto da inflação na mão de obra. “Acabei de reformar a casa e percebi que os serviços de pedreiro e eletricista estão muito caros”, afirma.

De fato, a mão de obra para reparos em residência teve um aumento de 8,5% no ano passado, segundo a FGV. Já o serviço de conserto em eletrodomésticos sofreu alta de 12,14%.

Nicodemos também reclamou dos preços em restaurantes. “Estou gastando cerca de 25% a mais para almoçar fora de casa. E é um gasto que eu não posso cortar, então procuro os lugares mais baratos. Percebo que os preços variam até 100% entre um bairro e outro”, aponta o taxista.

De acordo com André Braz, o alto custo dos aluguéis no Rio e o aumento no valor dos alimentos influenciaram na elevação sofrida pelo setor de alimentação.

Segundo o economista, outro fator que provoca inflação nos serviços é o aumento da demanda. “A renda do brasileiro é crescente e com a maioria da população empregada, a procura por esses serviços que facilitam o dia a dia aumenta. O consumidor pode tentar impedir os aumentos consumindo menos e optando por serviços mais baratos”, diz.

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