Leda Nagle: Nem neste verão, nem nunca

A violência não é normal. Não pode fazer parte do cotidiano. Nem pode virar moda

Por O Dia

Rio - Desde sempre o verão é tempo de lançamento de moda. Já tivemos o verão da canga, da tanga, da lata, entre dezenas de outros. Os estilistas se preparam em pleno inverno para a temporada de verão. A malhação começa em outubro, no máximo novembro, as academias ficam diferentes, a busca pelas dietas também. E com elas novas paixões que se renovam a cada verão. Tipo a linhaça divide seu espaço com a quinoa que dá seu lugar ao amaranto e ele ao detox. A dieta da hora é comer mais proteína do que carboidrato.

E ler todos os rótulos na tentativa de consumir cada vez menos glúten e cada dia menos lactose. Se um dia (anos 70) a moda foi sexo, drogas e rock’n’roll, hoje o momento é da magreza e da qualidade de vida. Os cabelos lisos vão dividir espaço com os cabelos cacheados que, ao que parece, vão recuperar o tempo perdido. Nesta temporada os homens conseguiram avançar, e muitos já trabalham de bermuda.

Os ternos ficaram mais tempo no armário para alegria dos engravatados. Neste verão escaldante o beijo gay conseguiu acontecer na novela das nove sem que o mundo tenha caído sobre nossas cabeças. Neste momento de preço delirante, o ser farofeiro cedeu lugar a ser proprietário de um isoporzinho, e o cafona perdeu para a busca do preço justo. Uma espécie de surfe com remo (o tal stand up paddle) foi a descoberta dos esportes do verão.

Até homem de saia no dia a dia carioca a gente viu. Será que pega? Mas, como tudo na vida, este verão não é só alegria e marca também momentos violentos como o episódio dos chamados justiceiros e do adolescente pendurado no poste. Não é humano nem certo pendurar outro ser humano no poste. Mas também não é humano ver o ciclista esfaqueado por conta da mesma violência. A perplexidade e o horror tomam conta de todos. O que fazer com isto? Como agir? Quem vai agir? As rajadas de metralhadoras também voltaram a algumas áreas pacificadas.

O medo voltou em várias comunidades. No asfalto, as pessoas se protegem, avisando umas às outras para não falarem ao celular, nem se distraírem mandando torpedos nos seus telefones em lugares como a Visconde de Pirajá, em Ipanema, ou Avenida Nossa Senhora de Copacabana. É preciso entrar numa galeria ou loja, avisam porteiros e seguranças, tem muita gente roubando celulares por aqui, eles explicam. O medo do outro se amplia. Na rua, no cinema, até na padaria onde o pedófilo ataca a menina. Isto também não é normal. A violência não é normal. Não pode fazer parte do cotidiano. Nem pode virar moda. Nem neste verão, nem no próximo. Nem nesta década, nem nunca.

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