Moacyr Luz: Cotidiano

O Medalhão à Moda da Casa se transmuta shakespeariano em ‘fashion house’.Quase um Joel Santana, pode ser?

Por O Dia

Rio - Entro no táxi, mas o motorista me ignora ajustando o volume do seu portátil aparelho de DVD ao nível britadeira no asfalto. Murmuro um boa noite, claro, inaudível. Porta fechada, repito o grito de um Tarzan despencando do cipó pra baixar o som do veículo trepidante.

De esguelha, um viés permissionário, o chofer dispara: — Olha, doutor! Tô vendo a novela. Faz sinal pra outro!

Imagino um inocente bósnio, mais pra Herzegovina que Radial Oeste, tentando assistir à estréia da seleção do seu país no Maracanã. Um olho no gato o outro na tabela, perdido às margens do Bellini, permanece mudo no banco traseiro enquanto o taxista explode no cristal líquido da tela, um suado pastor exorcizando o fiel da galeria.

A cento e poucos dias do pontapé inicial, a bandeira do oportunismo tremula soberana. O gaiato instala uma luneta no alto do morro de Mangueira, anuncia e aluga pra um correspondente russo o barraco da família garantindo a ‘vista’ pro estádio. O Azambuja verde e rosa, voz de Wilson Grey, ainda oferece um churrasquinho miado pra entreter os convidados na partida contra os belgas.

Fluente no idioma, sotaque de guia do Mercado Modelo, o garçom na beira­mar traduz o File à Oswaldo Aranha num evidente Oswaldo Spider, aves voam no cardápio catalogadas como ‘birds’ enquanto o Medalhão à Moda da Casa se transmuta shakespeariano em ‘fashion house’.

Quase um Joel Santana sem prancheta, pode ser?

É louvável querer levar algum na Copa brasileira.

Lembrei um curto diálogo entre um grande amigo, corretor de automóveis, e o cliente desconfiado:

— Mas o senhor pintou esse carro, certo?

— Pintei! Mas posso arranhar de novo, prefere?

Tardiamente, quando mordi um pastel na orla custando mais de dez reais, entendi que ser ‘um tremendo pastel’ era um elogio, e da mais alta patente.

Cidade cheia, turistas subindo o Corcovado de rapel, sol direto da fábrica, o Mundial bate à nossa porta. No samba de João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro, o verso rima: — A casa é sua.

Tô aqui vestindo a camisa.

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