Nelson Moreira: É a economia, idiota

É preciso saber como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico conseguiram o poderio bélico, já que armas não brotam no deserto

Por O Dia

Rio - O massacre na redação do jornal ‘Charlie Hebdo’ gerou uma onda de manifestações a favor da liberdade de expressão e contra o terrorismo, principalmente de governos de países considerados democráticos. Como o ataque foi na França, o presidente francês, François Hollande, se apresentou como porta-voz da, justa, indignação mundial contra as atrocidades dos grupos de fundamentalistas.

Mas é preciso entender quem são os inimigos e sua origem. A novidade no cenário do terrorismo é o Estado Islâmico, que ganhou notoriedade por suas ações bárbaras, de execuções por decapitação, gravadas em vídeo e divulgadas na internet. Na Sociedade do Espetáculo, como o filósofo francês Guy Debord, nos anos 1960, definiu a sociedade midiática e da imagem, o horror, lamentavelmente, também tem seus momentos de celebridade.

Mas, assim como é preciso combater o Estado Islâmico, a Al-Qaeda e outros grupos, é preciso saber quem são seus aliados e como conseguiram o poderio bélico, já que armas não brotam no deserto. Se estão lá, é porque alguém levou. Uma entrevista de Hollande ao jornal ‘Le Monde’ em 21 de agosto nos dá uma pista. O governante que hoje levanta sua voz, e suas tropas, contra o terrorismo admitiu que mandou entregar armas aos “rebeldes” que tentam derrubar o presidente sírio Bashar Al-Assad. Hoje, esses “rebeldes” são o Estado Islâmico, e as armas dadas pela França, e também por outros governos ocidentais, as que permitiram que ele tomasse parte da Síria e do Iraque.

O eufemismo de chamar de “rebelde” terroristas não apaga a realidade: o governo francês, segundo Hollande, apoia o terrorismo. E não está sozinho nem superou a liderança americana, que tem no surgimento no Afeganistão da Al-Qaeda e de seus “rebeldes” comandados por Osama bin Laden seu maior ‘mérito’. Além da França e dos Estados Unidos, participaram do apoio a “rebeldes” a Itália, a Alemanha, a Austrália, a Inglaterra e outras potências, a maioria no grupo dos maiores produtores de armas do planeta.

Produção que, para ter saída, como qualquer dono de mercearia sabe, precisa de demanda. Agora, os governos democráticos usam suas armas para combater os ex-rebeldes, hoje terroristas. E a indústria armamentista produz mais. Assim funciona a economia capitalista.

Nelson Moreira é jornalista do DIA

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