Wilson Diniz: Cunha virou personagem

Movido por suas loucuras e ambições desmedidas em busca do poder, ele joga com sua base de 110 parlamentares, manipulando a Casa visando a interesses pessoais

Por O Dia

Rio - Outro dia, o jornalão americano ‘The Washington Post’ chamou de “chantagista” e “aproveitador” o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, a quem o articulista Dom Phillips comparou a Frank Underwood, do seriado ‘House of Cards’. Underwood, sabem bem os fãs da trama, é um político ambicioso, maquiavélico e sem ideologia, um conservador movido por pura vingança. “Sua ideologia é a ideologia do poder”, resume o ‘Post’.

Cá no Brasil, o jornalista Ricardo Noblat, no ‘Globo’, afirmou que Cunha, como o fez Collor, rolará ladeira abaixo. Trata-se de um “político provinciano” que só chegou aonde está porque “desmoronou a qualidade de nossos parlamentares”. Conclui que, em breve, ao virar réu em processo no STF, não servirá para mais nada. Corre o risco de acabar como ficha-suja. No ‘Estadão’, Dora Kramer, na edição de anteontem, diz que Cunha mistura as estações: “O seu caso é de polícia.”

Movido por suas loucuras e ambições desmedidas em busca do poder, Cunha joga com sua base de 110 parlamentares, manipulando a Casa visando a interesses pessoais. Tenta destruir Dilma, eleita com o apoio de seu próprio PMDB. Ele, na verdade, não lucubra com seu xadrez político contra a presidenta, e, sim, contra os interesses do Brasil, que sofre os reflexos da crise internacional e dos desmandos herdados do governo Lula.

Por insensatez, parte para o ataque belicoso contra as instituições e as redes do poder. Lança petardos contra o MP, o STF e a PF — e ainda questiona o juiz Sérgio Moro. No Congresso, impôs 14 derrotas em votações ao governo Dilma. É acusado de receber propinas que superam cinco milhões de dólares. Materializando o processo, Moro está anexando extratos bancários vindos da Suíça, onde o deputado é suspeito de envolvimento em remessa de divisas, fruto da Operação Lava Jato.

Cunha deveria conhecer o PMDB. O partido sempre esteve como coadjuvante do poder desde FHC. O ex-presidente Itamar Franco foi fritado. Garotinho, outra vítima, e Germano Rigotto, ao largar o governo gaúcho, caiu em desgraça e não foi reeleito.

Cunha deve ficar isolado dentro do PMDB em processo de morte precoce. A Polícia Federal está concluindo devassas, e a Fazenda, em conjunto, completará seu destino. O presidente corre risco de perder o mandato e virar peça de ficção, como Underwood.

Wilson Diniz é economista e analista político

Últimas de _legado_Opinião