Frei Betto: Crimes singulares

Paulo Maluf foi acusado de pagar R$ 4,901 milhões por um serviço que não foi feito. O crime prescreveu

Por O Dia

Rio - Ele apareceu em uma concessionária de veículos às 16h30. Escolheu uma Land Rover Discovery 4x4, zero quilômetro. Após apresentar documentos e atestado de residência, pagou, no cheque, R$ 244 mil. Uma hora depois o mesmo veículo retornou à concessionária conduzido por outro motorista. O gerente indagou se era parente do primeiro comprador. “Não, eu acabo de pagar, em dinheiro, R$ 170 mil por este carro”.

O gerente entrou em pânico, sentiu-se vítima do cheque sem fundo. Chamou a polícia e, acompanhado do delegado, bateu na casa do primeiro comprador, que arrumava as malas para viajar a Buenos Aires. Diante da fúria do gerente e da inquirição do delegado, o sujeito convocou seu advogado. O carro não era dele? Se quisesse, podia tê-lo vendido por R$ 1. Ou doado.

“OK”, retrucou o delegado. “Mas o senhor só viaja depois que o banco abrir amanhã e ficar comprovado que o cheque tem fundos.” Impossível adiar a viagem. Na manhã seguinte teria que assinar um contrato na capital argentina e, se não fosse, teria de pagar multa de US$ 200 mil. O gerente, convencido de se tratar de um estelionatário, aceitou o acordo proposto pelo advogado: o cliente suspenderia a viagem, mas se o cheque tivesse fundos ele seria ressarcido em US$ 200 mil. O homem cancelou a viagem. Na manhã seguinte, confirmou-se: o cheque tinha fundos.

Reunida a diretoria do banco, o presidente abriu o jogo: havia provas de que o diretor-tesoureiro desviara alguns milhões de reais para a sua conta privada. Surpresos, todos encararam o acusado. Antes que ele pudesse fazer uso da palavra, o presidente acrescentou que o banco preferia evitar escândalos, de modo a preservar seu bom nome na praça. Bastava o diretor devolver o valor e assinar a carta de demissão.

O acusado advertiu: “Em todos esses anos na tesouraria documentei inúmeras falcatruas cometidas pelos senhores e pela própria instituição bancária. Se eu for preso, os senhores também irão. Que fique bem claro: deixo o banco, viajo esta noite para o exterior e a minha conta permanece intocada. De acordo?” Ninguém discordou.

O deputado Paulo Maluf foi acusado de pagar R$ 4,901 milhões, em 1996, quando prefeito de São Paulo, por um serviço que não foi feito na construção do Complexo Ayrton Senna, em São Paulo. Pagou com dinheiro seu (não dele), meu, nosso. Na terça, 7 de agosto de 2007, o STF mandou arquivar o processo. Alegou que, mesmo que Maluf fosse culpado, o crime prescrevera.

Frei Betto é autor do romance policial 'Hotel Brasil' (Rocco)

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