Leda Nagle: Não dá mais para esperar

Este verbo esquisito procrastinar, adiar, deixar pra depois, faz parte da nossa vida desde sempre

Por O Dia

Rio - Desde sempre se ouve que não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje. Desde sempre, a gente conhece gente que faz deste hábito uma quase regra no seu dia a dia. Por diversas razões: por preguiça, na esperança que ninguém perceba, porque a tarefa é chata, porque faz a linha Gabriela, tipo eu nasci assim, cresci assim. Ou porque acredita que varrendo pra debaixo do tapete a situação se resolve. E ainda tem aqueles que entregam pra Deus, e usam esta expressão ou esta crença para não tomar atitude alguma e ainda se vitimizam. E não estou falando só das questões mais triviais, como a torneira que pinga, a porta emperrada, a louça empilhada na pia. Nas grandes e pequenas questões que envolvem boa parte da população, este mesmo adiamento de atitudes acontece todo dia.

Veja agora a polêmica sobre taxistas e motoristas de carros executivos. Já teve protesto, reclamações, passeatas. Agora, está instalado um vale-tudo nas ruas, com motoristas querendo resolver no braço aquilo que precisa de normas, leis e decisões tomadas de cabeça fria. Já teve motorista espancado no Rio e em São Paulo. É hora de agir, de colocar ordem na casa antes que aconteça uma tragédia.

Outro dia li nos jornais um executivo falando uma palavra rara de ouvir mas muito presente na vida real: pasmaceira. Não era sobre esta questão, mas é perfeita para situações como esta. É preciso sair da pasmaceira. No começo da semana, prenderam vários bandidos e apresentaram suas armas. Armas de guerra, que podem derrubar helicópteros. Certamente não foi a primeira vez. Todos, autoridades e cidadãos, ficaram horrorizados. É preciso ter atitude, tomar coragem, mudar a regra do jogo e não deixar que as decisões sejam procrastinadas.

Sim, este verbo esquisito procrastinar, adiar, deixar pra depois, tem feito parte da nossa vida desde sempre. Todos nós empurramos com a barriga alguma coisa. Outro dia, ouvindo o psicanalista Manoel Thomaz Carneiro, gostei da maneira que ele vê o tema. Para ele, procrastinar é deixar nossos neurônios preguiçosos, é envelhecer precocemente o cérebro. O deixar para depois não nos liberta e sim nos enche de culpa, de indolência. Manoel propõe que sejamos chefes de nós mesmos, que mandemos em nossos neurônios, como se fossem funcionários contratados por nós, para enfrentar a realidade, sem adiar, nem deixar para amanhã. Em outras palavras: todos temos que dar duro com a gente mesmo para seguir em frente. Não dá mais para adiar, procrastinar ou esperar. E vale para todos. Inclusive autoridades.

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