Milton Cunha: Na varanda com Fafá de Belém

Abrasante mulher que agora se revela a grande pajé, guardadora dos segredos de nossa gente

Por O Dia

Rio - A televisão paraense comemorou com entusiasmo a repetição do videotape em preto e branco da aparição estrelar de Maria de Fátima Moura Palha na cadeia nacional do ‘Fantástico’. Nossa menina tinha chegado lá, logo emplacando, no primeiro LP, trilha de novela. Era o máximo. Seios fartos chegavam à frente do sorriso largo da cabocla, numa sensualidade explosiva, impossível de controlar. Representativa de nossas morenas da beira do rio, na selva onde nudez e misticismo são naturalmente companheiros. O Pará a adotou como sua estrela solitária, assim como só cabe uma em nossa bandeira, central. Ela nos representava. Não sei quando incorporaria o véu de nossas beatas, em sua sinceridade profunda de amor ao catolicismo. Mas de repente, para eu que estava de fora, já a vi diante do Papa, vivendo com sinceridade suas canções de amor e fé. E antes tinha tido os palanques, onde bradava “quem é este peregrino”.

Portanto quantas facetas caberiam em nossa Diva Tucupi? Quanto mais ela encarnava outras possíveis Fafás, mas nossa ela era. Cada desembarque na Europa, mais íntima da tribo ficava. Botou xale e, comovente, entoou lusitanismos do fado. O português que casou com a índia (meu avô de Trás os Montes, que me deu cabelo e olho) se manifestava nas tristezas das canções. Então, ela não mudava nem incorporava outras, ela seguia a trilha, catando aqui e acolá tudo o que como povo, misturamos em nossos ritos e mitos.

Agora fala de “paraensismos”: somos um povo impulsivo; alguns não nos compreendem, mas em nossa exuberância, meio índio, meio caboclo, somos verdadeiros, não levamos desaforos pra casa. Mas somos amorosos e celebramos a vida de forma espetacular. Bom Círio, fiquem com Nazinha, Nazarezinha, Naza Rainha, a mãe de todos nós. Viva Nossa Senhora de Nazaré!

Bradava ela do alto de sua varanda e dos 40 anos de carreira, debruçada sobre os dois milhões de romeiros, passantes sob o sol do Guajará. Brilhante. Abrasante mulher que agora se revela a grande pajé, guardadora dos segredos de nossa gente. Nela tudo cabe: como sua lista de convidados, que harmoniza do Padre Fábio de Melo, maravilhoso gente-boa, a Tony Garrido do Cidade Negra. Bem como o Brasil, sincrético, multirracial, misteriosa mistura. Uma maestrina que do microfone fala com o promesseiro da corda, os anjinhos crianças, os barqueiros, as travestis. Todos acenam, íntimos. Ela é um de nós. Mais que uma mulher, o próprio carro dos milagres: em seu abraço, esperanças e sofrimentos daqueles que não desistem, e ano após ano lá estão para vê-las. Salve a Santa e salve ela, pontes a ligar mundos. Potência de embaixatriz, voz a serviço do bem.

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