Milton Cunha: Faltou eu combinar com o califado

Quando foi que eu descobri que a diferença é um problema para muitos dos outros humanos?

Por O Dia

Rio - Quando foi que eu peguei aversão a qualquer coisa exclusiva? Criança, me arrepiava de medo quando diziam: “Ela é da elite!” Se existia elite, cercada, delimitada, então eu estava fora; e se eu e meus semelhantes estávamos fora, de nascença, isto não podia ser interessante, porque o bom de viver era se movimentar, passar de uma casta pra outra, casar com gente outra, de cor de pele e cultura diferentes, conta bancária com outros dígitos, descobrir outros mundos. A mobilidade me seduzia, era possibilidade concreta, e toda tentativa de enjaular me parecia triste, pobre e desinteressante. Se no colégio tal só estudava rico, lá eu não queria estar, porque buscava a mistura, sinônimo pra mim de fuzarca e admirável mundo misturado. Se só podia gente assim, ou assada, que grande merda era isto: mundo padronizado, horrível.

Nos meus sonhos eu tinha um amigo japonês, um índio com cocar maravilhoso, uma negra africana belíssima e careca, e, se eu desse muita sorte, uma mulher-girafa exótica de não sei onde (aquelas que vão colocando anéis no pescoço). Eles me apresentariam seus Deuses, eu os reverenciaria, encantado com cheiros de outros países e comidas de sabores reveladores da natureza distante. Então eu era governado por um presidente que mais seria uma fada madrinha, fraterno, atencioso, realizador de sonhos. Meu político ideal era um Aladim, que entregaria lâmpadas para eu morar na garrafa da Jeanne é um gênio! Tapetes, estofados de seda, almofadas e cortinas drapeadas.

Quando foi que eu descobri que a diferença é um problema para muitos dos outros humanos? Quando o deserto se revelou esconderijo do califa que quer matar todo mundo, eu inclusive? Mas, califa, eu, superdiferente do senhor, não acho que sua tribo deva morrer. Sei que a visão de mundo dos senhores é outra, sei que para vocês sou filho do demônio com minha cultura ocidentalizada, capitalista, ainda mais porque sou gay assumido, o que me coloca na linha de frente do extermínio. Mas eu queria ir ao Bataclan parisiense celebrar, e não queria morrer.

Pois agora o califado do Estado Islâmico entra em mim como aquele lugar de uma elite deplorável, porque excludentemente assassina. Que triste será este mundo quando só sobrarem eles, e parece que eu vou ter que torcer para a diversidade do restante do planeta, o que me coloca desejando que eles não consigam o que querem. E isso não significa que eu ache o resto do mundo perfeito, bonzinho, bem intencionado. Que pena, que cresci e dei adeus às ilusões a ponto de ter que decidir entre eu e eles. Queria tanto poder abraçar e aplaudir o califa. Será que começo a viver meu capítulo de Terceira Guerra Mundial?

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