Foragido estaria por trás do ataque e protesto em Copacabana

Bandido conhecido como Pitbull teria ordenado atentado contra PMs em favela

Por O Dia

Rio - O tiroteio entre policiais e traficantes que vitimou o dançarino DG pode não ter começado de forma casual. O secretário Beltrame disse ontem que os PMs foram atacados a tiros na localidade Vietnã por bando que tinha o aval do chefe do tráfico Adauto do Nascimento Gonçalves, o Pitbull. Ainda segundo o secretário, os policiais foram checar denúncia sobre a presença do criminoso, quando foram recebidos a tiros.

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Foragido do sistema penitenciário desde junho, quando ganhou o direito de passar para o regime semiaberto (quando o preso pode sair durante o dia), o criminoso retornou para o Pavão-Pavãozinho depois de uma breve temporada em Duque de Caxias. E fez justamente da localidade onde ocorreu o confronto de segunda-feira seu reduto.

Após morte de dançarino do 'Esquenta' no Morro Pavão-Pavãozinho%2C policiamento segue reforçado com homens do Bope%2C Choque e batalhões da áreaFernando Souza / Agência O Dia

Cria da comunidade, Pitbull também pode estar por trás do violento protesto ocorrido na noite de terça-feira. Policiais afirmam que moradores foram incitados pelo criminoso a atear fogo em veículos e barricadas, além de usar garrafas de vidro e pedras como armas.

Pitbull figura em inquérito da 13ª DP (Ipanema) sobre o tráfico local. Ele também é investigado por confrontos com PMs em outubro e no mês passado, quando policiais ficaram encurralados.

Antes de sair da prisão para não voltar mais, ele foi capturado pela polícia em 2008. Na época, tinha crachá de vigia em obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Vândalos destruíram carros de vizinhos pensando que veículos eram de PMs

A revolta que tomou conta das ruas do Pavão-Pavãozinho e Cantagalo era direcionada aos policiais da UPP. Mas, no percurso, a onda de destruição acabou atingindo quem não tinha nada a ver com a confusão. Estacionados em frente à sede da unidade, na Estrada do Cantagalo, pelo menos dois carros foram depredados e um completamente incendiado. No entanto, os veículos, que os vândalos acreditavam ser de militares, eram de moradores da própria comunidade carente.

Uma das entrada da comunidade Pavão-Pavãozinho%2C em Copacabana%2C amanheceu cheia de entulho depois dos confrontos na noite de terça-feiraPaulo Campos/Agência O Dia

“O pior é que ele (o dono de um dos carros) sempre estacionava numa rua mais para baixo da favela. Desta vez, parou aqui, em frente à UPP, e foi para Ilha Grande. Avisei a um amigo nosso que está junto na viagem. Ele deve ter ficado arrasado, pois era seu primeiro carro e pagou em dezenas de vezes”, contou um amigo do proprietário do Gol incendiado.

Ao lado da carcaça, um Palio branco também era o retrato da destruição no Pavão-Pavãozinho. Além de vidros quebrados e marcas de tiros no veículo, dois blocos de concreto haviam sido lançados contra o parabrisas, que ficou parcialmente destruído. Pouco mais abaixo, um outro carro apresentava marcas de pedradas.

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Mas se os veículos dos policiais escaparam, a sede da UPP não. Contra o prédio foram lançadas dezenas de garrafas e pedras. O toldo da entrada também ficou destruído. Nenhum PM ficou ferido. Ontem pela manhã uma perícia foi realizada no local.

Laudo mostra que dançarino do 'Esquenta' foi assassinado

Ao contrário do que afirmaram órgãos de Segurança do Rio na terça-feira, Douglas Rafael da Silva Pereira, o DG, de 26 anos, dançarino do programa ‘Esquenta’, da Rede Globo, foi atingido por tiro antes de morrer. Quase 24 horas após o início das investigações e da perícia na escola onde ele morreu, que apontavam para morte provocada por uma queda, o laudo preliminar do Instituto Médico-Legal (IML) atestou que o jovem tinha marca compatível a ferimento de entrada de projétil de arma de fogo.

Segundo o laudo de necropsia, há perfuração de entrada na região lombar direita e outra, de saída, no braço direito, indicando que o disparo foi de baixo para cima. A morte provocou a revolta de moradores do Pavão-Pavãozinho e do Cantagalo, que incendiaram carros e fizeram barricadas. A sede da UPP foi atacada, e Edilson da Silva dos Santos, de 27, baleado na cabeça, também morreu.

Maria de Fátima Pereira%2C mãe de Douglas%2C mostra foto do filhoAndré Luiz Mello / Agência O Dia

A mãe do dançarino, Maria de Fátima da Silva, disse que, na declaração de óbito de DG, entregue ontem na 13ª DP (Ipanema), as informações atestavam o ferimento por perfuração. A informação do tiro foi confirmada ontem pelo secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame. Porém, ele ressaltou que não foram encontrados projéteis no corpo nem no local para confronto balístico. A mãe do DG, porém, falou que num saco que lhe foi entregue na delegacia havia duas cápsulas deflagradas, uma de .40 e outra não identificada, que foram repassadas aos investigadores.

“Ele foi torturado. O corpo está com afundamento do crânio, um corte no supercílio direito, um ferimento no nariz e arranhões e pisões nas costas e braços. Vou processar o estado”, disse Maria de Fátima, que depôs ontem.

Ela ainda implorou para que testemunhas compareçam à delegacia. “Muita gente viu meu filho apanhando e ouviu gritos. Além disso, dentro da creche onde eles dizem tê-lo encontrado, havia uma pessoa.” O corpo de Douglas começou a ser velado ontem no Cemitério São João Batista, em Botafogo, e será enterrado hoje, às 15h.

Na delegacia, Maria de Fátima também foi ouvida por oficiais da 8ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (DPJM), que abriu procedimento para apurar as circunstâncias do crime. As armas dos 10 PMs que participaram da operação foram recolhidas pelo comando da UPP, mas ainda não foram entregues à 13ª DP. Outros dois PMs acharam o corpo.

Os delegados Gilberto Ribeiro, da 13ª DP, e Rivaldo Barbosa, da Divisão de Homicídios, estiveram ontem na escola Lar de Pierina, onde o corpo foi encontrado. “Vim fazer o reconhecimento do local para entender a dinâmica do fato e até para comparar com os depoimentos dos policiais”, disse Ribeiro. Ele já ouviu alguns militares envolvidos no caso, que serão chamados para depor novamente. “Ouvimos os policiais antes da descoberta do corpo. Até então, havia acontecido confronto sem vítima. Agora, devido à morte de Douglas, eles serão chamados para depor novamente”, explicou o delegado.

‘Perdi dois filhos de criação’, diz auxiliar de serviços gerais no IML

No Instituto Médico-Legal (IML), a auxiliar de serviços gerais Simone Hilário, de 43 anos, moradora do Morro Pavão-Pavãozinho, estava desolada ontem de manhã. Em poucas horas, no dia anterior, ela perdera duas pessoas que amava: o dançarino Douglas Rafael, o DG, que frequentava assiduamente a casa dela, e o jovem Edilson da Silva dos Santos, 27, portador de problemas mentais e que ela criava desde os 18 anos. Ela contou que ao sair para trabalhar soube da morte de DG.

“Voltei para saber mais detalhes da morte de DG, que dormia frequentemente lá em casa, e não encontrei Edilson, que considerava o dançarino como irmão. Vizinhos, apavorados, gritaram que um PM tinha matado Edilson com um tiro na cabeça. Perdi dois filhos de criação no mesmo dia”, lamentou Simone, ressaltando que a família de Edilson é de Belém, no Pará.

De acordo com a Polícia Civil, se até amanhã parentes biológicos não aparecerem, Simone poderá solicitar a liberação do corpo. A auxiliar de serviços gerais contou que Edilson raramente saía de casa ‘por causa do retardamento mental’.

“Ele era pacato. Só sabia jogar videogame e baralho. Com auxílio-doença que recebia do governo, eu construí moradia para ele atrás do meu imóvel”, comentou.

Simone revelou que por ter roubado metais de uma cabine da PM, Edilson passou mais de três anos preso. Ela mostrou ofício judicial, de janeiro de 2011, determinando a liberação do rapaz do antigo Hospital Psiquiátrico Heitor Carrilho e recomendando a ele tratamento terapêutico.

Na terça, policiais e moradores do Pavão afirmaram que um garoto de 13 anos fora baleado no protesto. Ontem, no entanto, a informação não foi confirmada por autoridades.

Pezão quer empenho total

Em nota, o governador Luiz Fernando Pezão determinou empenho total na investigação e disse que aguarda o resultado para ‘tomar as medidas cabíveis.’ Já o secretário Beltrame disse que pediu rigor e pressa nas investigações. Ele não descarta a hipótese de o tiro ter partido dos PMs da UPP, mas disse que não pode fazer julgamento precipitado.

“Preciso de um indício mínimo que seja para afastar os policiais. Várias hipóteses têm que ser analisadas, mas precisamos de respostas técnicas”, disse ele, ressaltando que traficantes querem banalizar as UPPs e que é preciso reforma judicial para evitar a saída de criminosos da prisão, como Pitbull.

Policiamento é reforçado, e turistas saem às pressas

O policiamento seguiu reforçado ontem no Pavão-Pavãozinho, após protesto violento na noite de quarta-feira. À tarde, o comandante da Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP), coronel Frederico Caldas, informou que 200 policiais — de batalhões, UPPs da região, Bope e Choque — faziam incursões e a segurança da comunidade.

“Esse efetivo permanecerá lá por tempo indeterminado”, garantiu Caldas, que disse estar acompanhando as investigações. As localidades Quinta Estação e Vietnã, no alto do morro, são as áreas mais policiadas. De lá, segundo Caldas, teriam partido tiros contra PMs na segunda-feira.

Policiamento é reforçado em Copacabana, e turistas saem às pressasFernando Souza / Agência O Dia

Mesmo com o reforço policial, poucos donos de estabelecimentos comerciais arriscaram abrir as portas ontem. Na frente dos prédios de luxo na Rua Sá Ferreira, homens do Bope e Choque chamavam a atenção de moradores, que olhavam a movimentação das janelas.

Com medo da violência, um grupo de pelo menos 20 turistas franceses deixaram, num micro-ônibus, um hostel na subida da Ladeira Saint Roman ontem à tarde. Assustados e apressados, evitaram dar entrevistas. “Estamos com medo. Vamos embora para outra hospedagem”, limitou-se a dizer um deles, que se identificou como Thomaz Purpan, de 23.

A morte repercutiu nos EUA, Europa e Oriente Médio. A rede de televisão ‘CNN’ afirmou que ‘a morte de DG põe em questão a política de controle da segurança na cidade faltando dois meses para a Copa’. O canal árabe ‘Al Jazeera’ destacou que ‘o fato ocorreu a apenas 100 metros do local das competições aquáticas dos Jogos Olímpicos de 2016’. O francês ‘Le Figaro’ disse que ‘moradores do Pavão expressaram raiva e tristeza’.

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