Cenas Cariocas: Uma rua enfeitada alegra a alma

Na quarta-feira, véspera da estreia do Brasil na Copa, Rodrigo Vasconcelos, ajeitava uma rabiola verde e amarela na esquina das ruas Buarque de Macedo e do Catete

Por O Dia

Rio - Na quarta-feira, véspera da estreia do Brasil na Copa, do alto de uma dessas escadas de limpar marquise de edifício, Rodrigo Vasconcelos, de 29 anos, ajeitava uma rabiola verde e amarela na esquina das ruas Buarque de Macedo e do Catete. “Passa aí a extensão”, ele gritou lá do alto, enquanto os ônibus tiravam fino da escada, em plena hora do almoço. A extensão era para ligar à corrente elétrica uma fileira de lâmpadas de LED nas cores do Brasil, que deixará a Buarque (para os íntimos) iluminada até o final da Copa.

Cenas Cariocas%3A Uma rua enfeitada alegra a almaAlexandre Medeiros / Agência O Dia

Não era uma tarde qualquer – era uma tarde de redenção. Os preparativos de última hora da turma da Buarque traziam de volta ao Catete uma tradição de tempos imemoriais. “Começamos só há duas semanas. Antes, não tinha clima, talvez pelas manifestações contra os gastos da Copa, mas a gente resolveu se animar e manter essa tradição que vem de geração para geração”, disse Yan Gil, de 26 anos.

Nascido e criado no Catete, sei bem dessa tradição. Em outros tempos, a rivalidade para ver qual rua seria a mais bem enfeitada para a Copa estaria nas alturas em véspera de estreia do Brasil. Na Rua Silveira Martins, onde morei muitos anos, o “livro de ouro” já começava a circular logo depois de curada a ressaca do Carnaval. Seu Flávio, da barbearia, tricolor roxo, casava um extra se jogador do Fluminense fosse convocado. Até o turco da mercearia, que chamava a gente de “primo”, comparecia – e arrancar dinheiro dele era tão difícil quanto marcar o Garrincha.

A ‘vaquinha’ extrapolava os limites da Silveira (para os íntimos). Não valia se engraçar a pedir ajuda nos domínios rivais. Mas, além dos comerciantes da rua, o objetivo era obter apoio das lojas da Rua do Catete, sobretudo a Papelaria Catete, a Renascença Móveis e a saudosa Casa Juquinha, onde comprava meus craques do futebol de botão e cujo lema parecia música aos nossos ouvidos: “O Catete é o melhor bairro do mundo”.

As rivalidades afloravam. A turma da Silveira podia até “perder” para a da Dois de Dezembro, cinco quarteirões adiante, mas seria inimaginável ser batida pela vizinha Ferreira Viana. A poderosa Paissandu, com sua extensão inigualável (da Praia do Flamengo às franjas do Palácio Guanabara), não concebia uma derrota para a contígua Barão do Flamengo. Quando reconhecíamos a rival mais bem enfeitada, o jeito era se vingar conquistando uma moça de lá, ou dando o troco na primeira pelada no Aterro.

Essa era a tradição passada de geração a geração. Não necessariamente de pai para filho. Mas de turma para turma, na “família” da rua, dos mais velhos aos mais novos. Foi desse mesmo jeito que a galera da Buarque se mobilizou. “Quem pilhou a gente foi o Celso, que está na casa dos 50, e a gente convocou a rapaziada que tem 18, 17, 16. Cada um deu o que podia para começar a comprar material na Saara. Depois os comerciantes pingaram alguma coisa, mas pouco. A gente tem que contar com a gente mesmo, a tradição não pode morrer”, defendeu Fábio Chicão, outro veterano da causa.

Morrer não pode mesmo. Mas agoniza. No Catete, só a Buarque e a vizinha Correia Dutra estão enfeitadas para a Copa. “E na Correia, com todo o respeito, foi uma empresa que montou a decoração. Eles começaram há dois meses, tiveram patrocínio. Nós começamos depois e, pode ver, a nossa está muito mais bonita”, acentua a “saudável” rivalidade Tiago Lyrio, que participa da tarefa na Buarque desde a Copa de 1994. E tem razão, a Buarque brilha. Até o simpático Café e Bar Guanabara, onde se pode gastar (ou ganhar?) a tarde jogando conversa fora, está repleto de bandeirinhas.

Aplausos para a Correia, que, de um jeito ou de outro, se enfeitou e ajudou a manter um mínimo de rivalidade. Agora, “com todo o respeito”, como diz o Tiago, o caneco vai para a galera da Buarque nesse torneio imaginário. Que não dá título nem dinheiro a ninguém. Mas que, no fim das contas, alimenta a alma da gente.

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