Agora, quilombo tem luz e TV até fora da Copa

Aparelhos são antigos, mas já fazem parte do cotidiano do local

Por O Dia

Rio - A roça terminou mais cedo neste sábado, no Quilombo São José da Serra, fundado em 1850, e a 57 quilômetros de Valença, no Sul Fluminense. Ao meio-dia, os homens já estavam de volta da lida; e as mulheres, com o almoço pronto. Por ali, ninguém queria perder os lances de Neymar e cia, que enfrentariam o Chile, uma hora depois, em Belo Horizonte. Não fosse o time de Felipão, o trabalho só terminaria às 17h, quando começasse a escurecer.

Na Copa de 1994, O DIA esteve no quilombo e flagrou os moradores acompanhando a Seleção por uma pequena TV ligada à bateria de um carro. Não havia energia elétrica, e o local era isolado do resto do mundo. Ontem, porém, quando a reportagem retornou para ver como estavam, constatou que houve várias mudanças. Além da luz, TV deixou de ser luxo. Há uma em cada casa, além de geladeira e aparelho de som também. Num telecentro (espécie de lan house), computadores ligados à internet via satélite lhes davam acesso ao mundo. Celular, no entanto, não pega.

As famílias Roberto e Gonçalves%2C remanescentes de ex-escravos%2C do Quilombo de São José da Serra%2C em Valença%2C se preparam para a CopaCacau Fernandes / Agência O Dia

Líder espiritual das cerca de 150 pessoas que vivem ali — descendentes de ex-escravos de Congo, Guiné e Angola —, Terezinha Fernandes de Azedias, de 70 anos, conhecida como Mãe Tetê, pondera que as “tradições permanecem vivas”. Uma delas, a umbanda, que compartilha a fé dos quilombolas com a católica. Ontem, inclusive, haveria reunião com o pároco e, à noite, festa para São Pedro, com fogueira de Xangô.

Os gritos de revolta com o juiz, que segundo eles prejudicava a Seleção, cortavam o silêncio em volta. “Gosto de assistir com todo mundo junto, marido, filhos e minha mãe”, dizia Maria Luísa Roberto, 30, a mais animada. Outros, como o tio Marcos Gonçalves, 31, preferiam a concentração solitária.

Pressentimento, reza e corrente positiva para a Seleção

O clima era de apreensão no quilombo. Mãe Tetê alertara logo cedo para seus maus pressentimentos sobre o jogo. “Mas se houver muita reza, o Brasil segue adiante”, falou, com semblante fechado. Recado entendido. “Vamos pedir à Nossa Senhora e aos santos para ajudar”, respondeu, correndo para dentro de casa, uma neta.

Avisada do que dissera a líder espiritual, a jongueira Maria Luísa ficou nervosa: “Se Mãe Tetê falou...” Com gritos de “vai, Brasil”, ela calçava e descalçava o chinelo, deixando os pés sobre o chão de barro da casa de sapê. “Já nem sei mais o que fazer”, dizia. Seu marido, Nelson da Costa, um agricultor de 61 anos, saíra da cozinha, onde fica a TV, devido à tensão.

Prorrogação. Mãe Tetê relaxa. Luísa compreende. E, embora ansiosa, adianta o resultado à família: “O Brasil vai passar. Se não fosse pra ser, o Chile não teria acertado a bola na trave. É o sinal.” Por via das dúvidas, a corrente entre os quilombolas não é quebrada. Fim do sufoco. Poderiam respirar em paz, certos de que suas vibrações foram fundamentais.

Terezinha Fernandes de Azedias%2C a Mãe Tetê%2C e a família assistem ao jogo Brasil x Chile%3A desespero e alegria Cacau Fernandes / Agência O Dia


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