Diretores estrangeiros do COI prometem mergulhar na Baía

Pesquisador da UERJ diz que até os golfinhos estão contaminados

Por O Dia

Rio - A marroquina Nawal El Moutawakel, presidente da Comissão de Coordenação do Comitê Olímpico Internacional, prometeu que dará um mergulho na Baía de Guanabara para comprovar a boa qualidade da água. Ela disse isso na entrevista concedida nesta quarta-feira no Rio, após ser questionada sobre os níveis de poluição no local onde serão realizadas provas de vela.

“Proponho que todos nós mergulhemos na Baía de Guanabara. Podemos mergulhar todos juntos", disse Nawal. Se cumprir a promessa, Nawal correrá perigo. Levantamento feito pelo Laboratório de Mamíferos Aquáticos da Uerj, que estuda a diminuta população de botos-cinzas naquele mesmo território, indica um risco que vai além da sempre debatida emissão de esgoto.

Nawal El Moutawakel%2C do COI%2C minimizou risco de contaminação e prometeu mergulhar na Baía Divulgação

A análise dos tecidos de animais mortos indica a presença de resíduos industriais e químicos em níveis alarmantes. “Os botos ali encontrados estão entre os animais mais contaminados do mundo”, alerta o oceanógrafo José Laílson Júnior.

Ele, que monitora a vida marinha há 23 anos, se diz “chocado” com os componentes revelados pelas recentes necropsias. “Constatamos hidrocarbonetos de petróleo, retardantes de chamas, pesticidas e contaminantes químicos em quantidades alarmantes, somente comparáveis às dos golfinhos da costa norte-americana e dos mares do Japão, tidos como os piores referenciais de poluição do mundo mundo”, explicou. Além de retardarem as imunidades e a capacidade reprodutiva dos animais - que tem um ciclo de procriação considerado baixo, só gerando um filhote a cada três anos - os agentes químicos podem asfixiar os animais, representados, inclusive, na bandeira da cidade como símbolos da fartura em nossos mares.

Na primeira estimativa populacional de botos, feita em 1984, por meio de técnica de fotoidentificação (na qual se registra a ‘impressão digital’ na nadadeira), a população girava em torno de 400 animais. Hoje, o número total não chega a 10% desse total: são apenas 37 botos vivendo livremente. “Eles são animais residentes na Baía. É por lá que eles se acasalam vivem, procriam e se alimentam”, completa.

É justamente este hábito o grande responsável pela contaminação. “Eles estão no topo da cadeia alimentar e ingerem até oito quilos de peixes inteiros por dia. Com isto engolem órgãos metabólicos como fígado e coração que concentram muitos resíduos em estado bruto. Já os humanos ao consumirem apenas a carne dos peixes, sofrem menos”, completa.

José Laílson destaca que outro risco aos golfinhos são as mais de 70 embarcações ancoradas na Baía que, por não ficarem desligadas, emitem ruídos nocivos. “A água turva dificulta a visão, então, eles que se comunicam e se localizam por sons, de forma similar aos morcegos, ficam perdidos. Quando não se tem um ambiente de calmaria, os animais podem passar o ciclo reprodutivo em branco e não encontrar alimentos”, explica oceanógrafo que não vê boas perspectivas e crê que, em até 20 anos, a espécie pode ser dizimada da costa do Rio.

O pesquisador explica uma recorrente confusão feita entre botos e golfinhos. Apesar de serem cetáceos (mamíferos que vivem na água) e ‘primos próximos’, costuma-se chamar de boto, os animais próximos à costa. Já os golfinhos costumam ser vistos a distâncias maiores da terra. Porém, não existe diferença biológica relevante para considerar duas espécies diferentes.

Organizadores elogiam preparativos para os Jogos

A polêmica sobre a qualidade da água da Baía de Guanabara foi o principal tema da entrevista coletiva dos organizadores dos Jogos Olímpicos, na tarde de quinta-feira. O diretor-executivo Christophe Dubi minimizou a declaração do governo estadual de que não conseguiria cumprir a promessa de entregar 80% da água da Baía tratada. Ele garantiu que a qualidade será assegurada para as áreas de prova e que o legado é a continuidade da limpeza depois dos Jogos. “A qualidade da água vai continuar melhorando antes e depois do jogos de 2016”, disse.

Pesquisador da UERJ diz que até os golfinhos estão contaminadosLevy Ribeiro / Agência O Dia

A presidente da comissão organizadora dos Jogos, a marroquina Nawal El Moutawakel, afirmou que a prioridade do COI é zelar pela segurança de todos os atletas que virão ao Rio até 2016. A comissão elogiou a execução dos eventos-teste realizados até agora. Dubi disse que, agora, a preocupação da comissão são as questões operacionais, como a instalação de arquibancadas e treinamento de pessoal que atuará durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos.

Mais um teste: provas de vela reúnem 380 atletas na Baía

A Regata Internacional de Vela, evento-teste para os Jogos de 2016, acontece entre os dias 15 e 22 na Baía de Guanabara com a participação de 380 atletas. Será mais uma oportunidade para a análise da qualidade da água e seus efeitos sobre os competidores.

Na semana passada, 19 atletas estrangeiros que disputaram provas de remo na Lagoa Rodrigo de Freitas relataram indisposição depois das competições. A tentativa de limpar a Baía inclui até mesmo a soltura de três tipos bactérias inofensivas aos seres humanos, consumidoras de coliformes fecais, em algumas galerias de esgoto que deságuam na Baia. O trabalho é coordenado pela gerência de sustentabilidade do Comitê Olímpico.

Feito com ecobarreiras e ecobarcos, o trabalho é criticado pelo ambientalista Mário Moscatelli. “Apenas um paliativo, de curto prazo. Perdemos a oportunidade de limpar as águas da Baía ”, disse.

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