Violência deixou 32 mil alunos sem aula em 22 dias

Número equivale a uma média de 1.450 crianças fora das escolas diariamente

Por O Dia

Rio - Levantamento realizado pelo DIA revela que a violência deixou 32 mil alunos das escolas da rede municipal sem aula pelo menos um dia nas últimas três semanas. A conta que retrata o cotidiano de insegurança e pobreza, e resulta em ignorância, cresceu nesta terça-feira durante duas operações policiais, uma da Divisão de Homicídios na Cidade de Deus e outra do Bope, na Praça Seca. O confronto entre policias e bandidos fechou escolas e afastou cinco mil crianças dos estudos.

Os números são ainda mais preocupantes quando leva-se em conta que, no período, foram apenas 22 dias letivos. Em média, é como se a cada dia 1.450 alunos perdessem aula na cidade do Rio de Janeiro. A rede municipal de ensino do Rio é uma das maiores da América Latina, com 661.120 alunos, segundo a Secretaria Municipal de Educação (SME). O número de alunos afetados chega a quase 5% do total da rede.

“Estamos ilhados pela violência. É preciso que a prefeitura converse com a polícia para garantir a segurança na área das escolas e também que faça concurso para porteiros e inspetores”, criticou Marta Moraes, diretora do Sindicato Estadual dos Profissionais de Ensino (Sepe) .

Números mostram como a violência afeta o ensino no RIoArte O Dia

Nos três primeiros dias de julho, 7,7 mil alunos de colégios no Complexo da Maré ficaram sem escola por conta de confrontos entre criminosos e policiais. A situação na Maré é tão crítica que a Secretaria Municipal de Educação reduziu, dia 10 passado, os turnos de aula em 70 minutos, para tentar proteger alunos e professores. As aulas passaram a começar às 8h (antes era às 7h20) e a terminar às 16h (acabavam 16h30).

Os relatos são dramáticos. Na Maré, professores contam que tiros de fuzis são ouvidos cotidianamente dentro das escolas. No dia 6 de julho, o problema se repetiu com 3,5 mil crianças nas favelas do Rola e Antares, em Santa Cruz. Uma semana depois, a violência afetou o funcionamento de colégios e comprometeu as aulas de 5,6 mil alunos no Chapadão, em Costa Barros. Em 7 de agosto, novamente na Maré, 2 mil ficaram sem aulas na região.

Nas comunidades da Pedreira, o impacto da violência sobre os estudos recrudesceu em 10 de agosto, quando escolas e lojas fecharam em luto pela morte do traficante Celso Pinheiro Pimenta, o Playboy. O toque de recolher deixou 6,5 mil crianças sem estudar. No dia 11, o caso se repetiu no Morro do Juramento e atingiu cerca de 800 alunos estudantes da região.

Moradora da Cidade de Deus, Maria da Conceição não se conforma com a perda de aula do filho na Escola Municipal Alphonsus de Guimaraens. “Mandei meu filho hoje, e ele voltou dizendo que a escola estava fechada. Isso é um absurdo”, criticou. “Quero transferir meus filhos. Do jeito que não dá para ficar”, completou outro morador.

A Secretaria Municipal de Educação informou que se reúne com os comandos dos batalhões da PM de cada área conflagrada para minimizar o problema e que repõe as aulas perdidas.

Sem colégio na Cidade de Deus

Além do Bope, que fez incursões no Morro São José Operário, na Praça Seca, a Divisão de Homicídios prendeu quatro pessoas, na manhã de terça-feira, na Cidade de Deus. Agentes das Divisões de Homicídios, com apoio da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), estiveram na comunidade para cumprir nove mandados de prisão e busca e apreensão contra uma quadrilha envolvida em falsificação de passaportes e homicídio de um estrangeiro.

Portões dos colégios ficaram fechados nesta terça-feira na Cidade de DeusMaíra Coelho / Agência O Dia

Maria Célia de Assis, apontada como a chefe do bando, e a filha dela, Gisele Irinéia da Silva, foram presas acusadas de homicídio qualificado. De acordo com as investigações, a quadrilha vendia documentos falsos para imigrantes que estavam em situação ilegal no país. A DH assumiu o caso após a morte do dominicano identificado como Junior Acosta, no último dia 23 de junho, nas proximidades da comunidade César Maia, em Vargem Pequena.

Sem escola e com fome

A falta de aulas revela uma realidade ainda mais triste: as crianças ficam sem aula e com fome. Muitas delas têm a merenda como única refeição diária com qualidade nutricional. “É o retrato do problema social grave que o país ainda vive”, resume Marta Moraes, diretora do Sepe.

De acordo com a nutricionista Alessandra Araújo, a falta de alimentação balanceada resulta em déficit de crescimento e queda no rendimento escolar. “São preconizadas seis refeições diárias”, diz. Já a médica nutróloga Alice Amaral, de mais de 30 anos de experiência, considera que “crianças inocentes pagam o preço mais alto da violência”.

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