Em 11 anos, 50 crianças foram mortas por agentes de segurança do Rio

Dados do Ministério da Saúde mostram que, de 2001 a 2012, cidade liderou ranking nacional de mortes nessa faixa etária

Por O Dia

Rio - Baleado no peito terça-feira quando jogava bola em Manguinhos, Christian Andrade, de 13 anos, entrou para a triste estatística de crianças mortas em tiroteios no Rio. Outros dois meninos com menos de 14 anos de idade também morreram este ano baleadas em áreas com UPP: Eduardo de Jesus Ferreira, de 10 anos, no Complexo do Alemão, em abril, e Patrick Ferreira de Queiroz, de 11, na Camarista Méier, em janeiro.

Pesquisa do Ministério da Saúde realizada entre 2001 e 2012 em todos os registros do estado, aponta que agentes de segurança do Rio mataram 50 crianças desta faixa etária. Em São Paulo — segundo estado no ranking nacional —, no mesmo período, foram 13 casos.

Parentes e amigos lotaram o Cemitério do Caju ontem à tarde para se despedir do garoto ChristianJoão Laet / Agência O Dia

O número de mortes aumenta se computados também os casos de adolescentes entre 15 e 17 anos, nos quais a polícia argumenta que houve confronto. Felipe Ferreira de Souza, de 16 anos, morreu ao ser baleado ontem na Maré. Em agosto, Clayton da Silva Modesto, 17, foi encontrado morto no Chapéu Mangueira e, em maio, João Vitor Petrato Gomes, 15, foi baleado e morreu no Morro do São Carlos.

“A guerra às drogas dá uma licença para a polícia entrar atirando nas favelas. Nenhuma operação ou prisão justifica a morte de um inocente”, questiona a diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, Julita Lemgruber. 

“Quem conhece uma favela vê que há muitas crianças na rua. A morte de Eduardo no Alemão foi o sintoma da nossa patologia social. A cidade tinha que parar e refletir”, critica o presidente da ONG Rio de Paz, Antônio Carlos Costa. Ontem, outros dois adolescentes de 17 anos foram baleados, um nas nádegas e outro na coxa e no ombro. Eles foram levados para o Hospital Federal de Bonsucesso.

Em dois dias, confrontos deixam 10 mil alunos sem aulas

Aproximadamente 10 mil alunos perderam ao menos um dia de aula, terça e quarta-feira, devido aos confrontos no Complexo da Maré, em Manguinhos e na favela de Acari. Os dados são das secretarias estadual e municipal de Educação.

No dia 10 do mês passado, os turnos de aula na Maré foram reduzidos em 70 minutos. “Estamos ilhados pela violência. É preciso garantir a segurança na área das escolas”, criticou Marta Moraes, diretora do Sindicato Estadual dos Profissionais de Ensino (Sepe).

A Coordenadoria de Polícia Pacificadora informou que asmortes em confronto caíram 85% e os homicídios, 65%, entre 2008 e 2014. “É preciso que as pessoas de bem acreditem e apoiem o processo de pacificação”, diz trecho da nota.

Mãe desmaia ao enterrar o corpo do filho

O corpo do menino Christian Soares Andrade, de 13 anos, foi sepultado ontem à tarde, no Cemitério do Caju. Ao se deparar com o caixão do filho, Janaína Soares, não suportou a dor. “Meu filho, acorda!”, gritou antes de desmaiar.

Christian foi morto durante troca de tiros entre policiais e criminosos, terça-feira, em Manguinhos. Revoltados, amigos e parentes voltaram a afirmar que a criança jogava futebol momentos antes de ser baleado.

Eles impediram que a imprensa acompanhasse o cortejo e chamaram policiais da Unidade de Polícia Pacificadora de assassinos. Sete viaturas da Polícia Militar permaneceram em frente ao cemitério para evitar tumultos semelhantes aos de terça, na comunidade.

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