Estiagem faz com que leite que sai de Itaperuna fique mais caro

Com apenas um metro, Rio Muriaé agoniza e prejudica mais de mil produtores na região

Por O Dia

Rio - O prejuízo no bolso dos produtores rurais fluminenses vai chegar mais rápido à mesa dos consumidores. A fábrica de Leite Glória, em Itaperuna, no Noroeste Fluminense, que abastece mercados do Rio de Janeiro e Região Sudeste, já admite aumento nos preços dos produtos, por causa da queda de pelo menos 8% na produção desde novembro, provocada pela longa estiagem que atinge fortemente os municípios da região.

“O preço vai ter um aumento maior do que o previsto por causa da seca”, revelou o supervisor de fomento da empresa, Eduardo Grillo. A Leite Glória, que já pertenceu à Parmalat e à LBR, é operada desde 2012 pelo grupo Quatá, e beneficia 250 mil litros de leite diariamente, captados de 280 produtores e 11 associações rurais. Segundo dados da Emater-Rio, só em Itaperuna houve uma perda de mais de R$ 1, 7 milhão de litros de leite. Um prejuízo estimado em R$ 1,9 milhão.

Rio Muriaé atingiu seu nível mais crítico%3A um metro%2C quando o volume normal seria 6m. Se não atingir 5m até março%2C haverá desabastecimentoDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

O morador de Itaperuna já começou a sentir os efeitos da seca na hora de fazer as compras. Na feira da cidade, Gilmara Silva reclama do aumento nos preços. “Comprava chuchu a 89 centavos, mas agora está a R$ 1,89. O tomate de R$ 2 foi para R$ 5”. A gerente da rede Opa Supermercados, Débora Ferreira, disse que se continuar a estiagem, não há como segurar os preços. “Ainda não sentimos muito porque compramos produtos de Minas Gerais e Espírito Santo, mas as folhas são todas da região. Se a seca permanecer, os hortifrutis tendem a subir.”

De acordo com o secretário de Agricultura de Itaperuna, João Neto, dos 1.400 produtores, mais de mil foram afetados. “Quem tinha propriedade com córrego está sofrendo porque quase todos secaram. Estamos fazendo limpeza de poços para amenizar um pouco a situação. O Rio Muriaé criou várias lagoas. Está faltando oxigênio para os peixes. Diversas espécies estão se extinguindo”. Segundo ele, é preciso chover constantemente na cabeceira e em toda extensão do Rio Muriaé. “Pelo visto a situação vai piorar em relação ao ano passado porque a seca está perdurando muito”, lamentou.

Na fazenda onde Eliesé trabalha%2C já morreram 17 cabeças de gadoDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Com o pasto seco, o gado enfraquece e morre. Eliesé Barcelos, 52 anos, que trabalha em uma fazenda em Raposo, enumera os prejuízos de seu patrão. “Morreram 15 bezerros e duas vacas que produziam leite. Muito dinheiro perdido (R$ 20,5 mil). A produção passou de 400 litros diários para 300. Se não chover bem até sexta­feira, vamos ter que tirar o gado de lá”, contou.

O prefeito Alfredo Paulo Marques Rodrigues, o Alfredão, observou que esse momento é para que todos possam refletir sobre suas responsabilidades. “Estamos pagando o preço da falta de cuidado com a água. É um puxão de orelhas da natureza. Temos que proteger as nascentes. Vamos reflorestar a cidade e mostrar os benefícios aos produtores”, disse.

Defesa Civil alerta para falta d'água

O Rio Muriaé, que banha muitas cidades do Noroeste, chegou ao seu pior nível em Itaperuna: um metro, quando o volume normal é de seis nesta época do ano, quando a região, historicamente, é atingida por fortes chuvas de verão. A situação é tão crítica que em vários trechos é possível atravessar o rio, de uma margem à outra, sem molhar os pés, pisando as pedras.

Para o coordenador da Defesa Civil no Noroeste, Coronel Pires de Souza, a situação é alarmante. “Essa seca também prejudica o lençol freático. Se até março o rio não estiver com cinco metros de altura, vai acabar comprometendo o abastecimento em toda a região”, alertou.

O trabalho de recuperação de nascentes é a principal iniciativa do município para o combate à seca. “Estamos conversando com a Firjan para implementar o projeto ‘Adote uma Nascente’ até fevereiro, onde o produtor rural fará o cercamento da área da nascente em sua propriedade. Entraremos com o projeto técnico, com apoio da Firjan”, disse o secretário de Meio Ambiente, Alair Ignácio.

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