Ricardo Cravo Albin: A polêmica do samba

A polêmica que proponho embute possível dilema. E assesta sua bateria para a data do nascimento do samba, gênero musical que melhor representa o Brasil

Por O Dia

Rio - As datas precisas são por vezes imprecisas. Esta possibilidade audaciosa pode representar o desabrochar de polêmicas. Quando não de dilemas, que quase sempre provocam dilaceramentos de pensamentos subjetivos. Ou seja, caraminholas diversas nas cabeças dos que têm mais, ou menos, imaginação. A polêmica que proponho embute possível dilema. E assesta sua bateria para a data do nascimento do samba, gênero musical que melhor representa o Brasil.

Donga começou e concluiu ‘Pelo Telephone’, entre 1915 e 1916, inspirada a ele por cantorias e folguedos afro-brasileiros na casa de Tia Ciata, festeira, quituteira e ialorixá (dirigente de candomblé) na Praça 11, reduto de bambas e batuqueiros, quase todos ex-escravos. Ao fim de 1916, a peça veio a ser registrada na Biblioteca Nacional, com o indicativo de “samba”, designação nunca antes usada.

Donga, querido amigo meu desde o comecinho do Museu da Imagem e do Som, quando criei os depoimentos para a posteridade, de que ele foi dos primeiríssimos a depor a meu convite, chegou a dizer que teria sido o seu parceiro Mauro de Almeida, jornalista conhecido como Peru dos Pés Frios, que o estimulara a registrar a peça de ambos na austera Biblioteca. E isso mesmo antes de ser gravada, ao começo de 1917, pelo cantor Bahiano da Casa Edison, destinando-a oficialmente ao carnaval do mesmo ano.

Pois bem, maturada entre 1915 e 1916, seria ela apenas anotada ao finalzinho de 1916 na Biblioteca. Mas seu nascimento formal ocorreu em 1917. Primeiro, foi impressa e gravada. Em seguida, tornada pública pelo disco. E, finalmente, de reconhecimento geral, ao ganhar a boca do povo.

Portanto, proponho esta polêmica. Talvez um dilema. Mas uma verdade: o samba pioneiro deve ser datado de 1917. Até porque dezenas de composições da MPB ostentam o ano de batismo apenas ao se tornarem discos. Ou, ao menos, quando as partituras são impressas e distribuídas. Para consolidar esta data de 1917, a viúva de Donga, Vó Maria (morta aos 103 no ano passado), protagonizou os 90 anos do ‘Pelo Telephone’ em março de 2007, no Instituto da Urca, festa testemunhada por sambistas relevantes como Luis Carlos da Vila e Martinho da Vila.

Portanto, acordem todos! Especialmente as escolas de samba e a prefeitura, que deverão celebrar Donga ano que vem. Menos mal...

Ricardo Cravo Albin é presidente do Instituto Cultural Cravo Albin

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