Ana Cecília Romeu: Alícia no país sem maravilhas

O brasileiro é muito criativo para o bem e para o mal. Aqui se inventam fatos que se tornam verdades aceitas

Por O Dia

Rio - 
Alícia é uma das gatinhas da nossa família. Tem somente três patas, pois desde cedo conheceu a maldade e o lado mais triste da vida, o que atenta contra a própria vida. Foi acolhida por uma protetora, curada e colocada para adoção. Hoje tem a nós, o que lhe dá proteção e carinho. É ágil e feliz. Talvez a falta da consciência do fato seja uma bênção.

Mas e se Alícia soubesse o que acontece no país em que vive o que ela opinaria? Sobre os altos índices de violência e criminalidade; da mortalidade infantil; dos inúmeros casos de crianças parindo crianças; da saúde e educação públicas precárias; dos episódios de corrupção mais antigos e dos mais recentes?

Talvez Alícia achasse engraçado o fato de ter tantos automóveis às ruas, com o preço da gasolina tão monstruoso. Descobriria que acarajé não é somente o nome de um prato típico; e que lava jato não significa apenas lavagem expressa para carros. Quando fosse navegar nas redes sociais da internet, Alícia sentiria medo do ódio de alguns discursos e perceberia preconceitos, ranços e equívocos em polos opostos: a certeza de que muitas discussões beirariam à insanidade e nada acrescentariam a seu país.

Saberia que, apesar de estarmos em uma democracia, expressar uma opinião nunca seria tão difícil.
Por outro lado, Alícia aprenderia que aqui nasceu um dos maiores escritores da língua portuguesa, e que atendia pelo nome de Machado de Assis. Refletiria sobre o fato de que se ele fosse de língua inglesa seria mais reconhecido. E que no Brasil também nasceu Santos Dumont, o pai da aviação; embora os Estados Unidos creditem o primeiro voo aos irmãos Wright, alçados por uma catapulta. Que o brasileiro é muito criativo para o bem e para o mal. Aqui se inventam fatos que se tornam verdades aceitas por milhões de pessoas; e estratégias para conquistar o poder, se manter, ou derrubar quem está nele.

Alícia, que bom que você não tem consciência de tudo o que acontece neste país, porque ainda se venderá água em pó por aqui, negócio promissor com lucro rápido: para consumir o produto é só diluir em água. Mas se não existem grandes maravilhas, afora as que a natureza em espetáculo preserva; há em nós brasileiros uma brasa chamada Esperança, que nos faz crer, continuar e amar, apesar de tudo.


Ana Cecília é publicitária e escritora

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