Milton Cunha: É tudo verdade

No mundo dela, todos os problemas do mundo se resolvem quando o espermatozoide fecunda o óvulo

Por O Dia

Rio - No grande apartamento na Zona Sul, decorado em anjos dourados e rolando um bom almoço, tipo chique mesmo, com champanhe e queijos e patês bons, eu estava sentado no chão, sobre o tapete, encostado no sofá. Acho que isto é uma forma de protestar contra o cerimonial, a caretice. Quebro o protocolo sentando no chão, como meus antepassados (sabem que me acho índio ou negro?). Perto de mim estava uma mulher querida, que conheço há anos só de sociais, mas, por ser culta e bonita, sempre a achei sensível e, mais que isso, adorava o jeito com que ela tratava o marido e os filhos. E sempre foi bacana com os convidados, nunca falava de religião. Portanto, quando ela começou a falar, eu tive que subir o queixo para olhá-la. Ela estava no alto, sentada no sofá.

Ela disse: Inacreditável! Fulana foi expulsa esta semana de casa lá no Leblon, quando se assumiu lésbica. O pai não aceitou, a mãe obedeceu ao marido, e a moça preferiu ir passar dureza com a sua escolha de vida. Como pode uma pessoa querer fazer os pais engolirem ela ser homossexual? Não é normal, nenhum animal é gay, então ser gay não é natural, eles não procriam...

Sabe aquele queixo que levantei? Pois, no silêncio incrédulo de todos na sala, juntei-o do chão, queixo caído, respirei e falei baixinho: “Eu esperava mais de você. Seus argumentos são estapafúrdios, datados, você está cem anos atrás, quando ainda usavam normal e anormal. Sabia que a procriação não é argumento para nada? Tantos heteros já se declaram inaptos para procriar e educar. Sabia que a ciência já encontrou muitos bichos gays? Fora isto tudo, eu esperava mais de você....”.

Ela engoliu seco, mas meu marido falou alto, do outro lado da sala: “Que absurdo eu vir a este almoço para escutar este discurso homofóbico...” Eu procurei as câmeras, pois talvez fosse uma pegadinha. Sempre ouvi que estas pessoas existiam, mas nunca tinha dado de cara com elas, tão tranquilas, sem a menor vergonha do preconceito, vomitando merda como se pérolas fossem. “Eu não sou homofóbica. Eu adoro os gays, vocês, mas vocês têm que entender que vocês não engravidam, então vocês não podem ser normais sem ter filhos.” A cara dos presentes era de calcinação: a médica estava pálida, o dono do apartamento estava quase desmaiando. E todos amávamos a companhia dela, e ela caiu num copioso choro gritando:

“Não preciso que ninguém me defenda, eu sei me defender (e quanto mais falava, mais se atolava na movediça areia da limitação)”. Para sempre um mal estar, mas acho que devemos insistir nela. Em nossas diferenças. No mundo dela, todos os problemas do mundo se resolvem quando o espermatozoide fecunda o óvulo!

E-mail: chapa@odia.com.br

Últimas de Opinião