João Tancredo e Maria Isabel Tancredo: Contra a cultura do estupro

Caso da jovem de 16 anos trouxe à tona discussões permanentes nos movimentos sociais feministas

Por O Dia

Rio - O estupro da jovem de 16 anos por 33 homens chocou o país. Além da violência física, jogaram na internet vídeo da menina desacordada, enquanto seu corpo era manipulado como um objeto. O caso trouxe à tona discussões permanentes nos movimentos sociais feministas, como violência contra a mulher e cultura do estupro. Na contramão da defesa das mulheres, contorceram o debate para duas frentes machistas: buscar características da vítima, com o objetivo de culpá-la pela violência, e fomentar discursos de ódio e incremento da punição, com defesa de pena de morte ou castração química.

O debate merece sempre ter o mesmo ponto de destaque, que é o machismo estrutural e enraizado, construindo e reproduzindo todo dia a cultura do estupro. Cultura cuja realidade é de uma mulher estuprada a cada 11 minutos. Não há tentativas de culpar a vítima que expliquem esse número. Tampouco é possível buscar limitar liberdades garantindo que “não aconteceria se estivesse em casa”, já que, segundo o Ipea, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos.

Se o centro da questão é o machismo, o patriarcado e a cultura do estupro, não será a violência ou discursos de ódio oportunistas que resolverão. Nos últimos dias, alguns grupos que nunca se colocaram em defesa da discussão de gênero se aproveitaram do momento para fomentar punições que não dialogam com a raiz do problema, já que não querem transformar essa realidade.

Nesse sentido, pedir penas de morte, castração ou mesmo endurecimento de pena não tem relação com o fim dessa cultura perversa. Momentos como esse devem servir como freio para qualquer tipo de projeto como “escolas sem partido”. Esses modelos criariam um monopólio de discurso machista e opressor que se reproduziriam multiplicando a violência contra mulheres e outras minorias políticas no Brasil.

É o momento de fomentar a discussão sobre gênero, liberdade, emancipação e empoderamento para que nunca mais aconteçam casos de estupro.

?João Tancredo é advogado e Maria Isabel Tancredo é acadêmica em Direito

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