Júlio Furtado: Preconceito se desaprende na escola

A cura advém da coragem de conhecer, aproximar-se para reconstruir o conceito, o que exige coragem e desprendimento

Por O Dia

Rio - Estupros coletivos, violência doméstica contra a mulher, chacina em boate LGBT, apedrejamento de seguidores das religiões afro, ofensas e humilhações gratuitas a negros e desqualificação de nordestinos por causa da procedência são apenas alguns dos principais fatos que têm estado presentes na mídia. Diante deles, perguntamo-nos por que tais pessoas têm tanto ódio dessas minorias, a ponto de cometê-los.

Caímos, via de regra, na reflexão sobre o preconceito, que quer dizer conceito prévio formado antes de conhecer. Logo, o preconceito se alimenta do que a gente pensa que é. Sim, digo “a gente” porque todos temos em algum nível um tipo de preconceito com relação às pessoas, coisas ou situações. Pessoas tatuadas, obesas, muito altas, que moram em favelas ou que estão em tratamento psiquiátrico também são alvos frequentes do preconceito.

Preconceito é coisa que se sente, mas dificilmente se fala. É sempre uma questão alheia. No caso do preconceito contra mulheres e homossexuais, mesmo diante do número de mulheres e gays que são agredidos e mortos todos os dias, alguns grupos fundamentalistas conseguiram retirar de milhares de Planos Municipais de Educação e de vários Planos Estaduais a obrigatoriedade de a escola trabalhar as questões de gênero sob o argumento de que homem nasce homem e mulher nasce mulher e ponto final. O que não fica explícito nessa ideia é que, assim sendo, os papéis sociais serão os mesmos para todo o sempre. Homens provedores, ativos e fortes que não devem trocar fraldas ou passar roupas e mulheres submissas, passivas e frágeis que não são capazes de pilotar aviões, governar países ou construir pontes.

O preconceito é uma doença que tem cura, mas em última instância pode ser mantido sob controle. A cura advém da coragem de conhecer, aproximar-se para reconstruir o conceito, o que exige coragem e desprendimento. O controle é fruto do entendimento que aceitar e aprovar não são a mesma coisa. Aceitar, pressupõe respeito e consciência dos direitos. Aprovar pressupõe concordância e identificação de valores. Logo, podemos aceitar sem aprovar. O papel da escola nesse contexto é atuar nas duas frentes: propiciar o conhecimento para promover a aceitação e o respeito às diferenças.

Júlio Furtado é professor e escritor


Últimas de Opinião