Márcio Pereira Nunes: Donald Trump e o Brasil

Podemos esperar uma política voltada para a proteção desses setores. Não é tão simples, pois existem acordos delineados e assinados que não podem ser revogados, sem custos, de modo unilateral

Por O Dia

Rio - Trump foi eleito presidente dos EUA com o discurso voltado para os que perderam com a globalização. Justamente por isso, usou como bode expiatório o imigrante e fez do nacionalismo sua bandeira. Parte da sociedade americana, atrelada à indústria tradicional (siderurgia, construção civil, automotiva e de eletrodomésticos) perdeu com esse processo de inserção internacional. São setores que não movem mais a economia americana. Esta cresce na aeronáutica, na robótica e na química — só olhar a alteração nas empresas que estavam no S&P 500, em 1960 e 1970, e as de hoje.

Podemos esperar uma política voltada para a proteção desses setores. Não é tão simples, pois existem acordos delineados e assinados que não podem ser revogados, sem custos, de modo unilateral. Ainda assim, pode-se esperar, para os próximos anos, tomadas de decisão que criem embaraços (restrições quantitativas ou tarifárias) que dificultem importações de empresas externas para os EUA nesses setores.

Do mesmo modo, houve, ao longo da campanha, questionamentos quanto a empregos gerados no exterior por empresas americanas que direcionaram suas respectivas produções para outros países, como forma de baratear os custos de produção.

Hoje, é comum que os fundos de investimentos aportem recursos em outros países. É possível que Trump venha a criar embaraços nesse campo. Mas é factível fazer essa ilação, uma vez que reduz recursos que poderiam ser aportados na economia americana. Outrossim, uma política econômica que venha a ser mais conflituosa com a China, no comércio internacional, arrefeceria o potencial de crescimento deste.

Essas tomadas de decisões afetariam diretamente setores da economia brasileira ou indiretamente a economia brasileira como um todo, nesse último caso devido ao menor potencial de crescimento global. Assim, olhando para frente, quanto mais atrelado o setor ao comércio internacional ou ao capital internacional, tanto maior a chance que ele venha a ser afetado, se Trump cumprir o compromisso de campanha que teve com seu eleitorado. E nem precisa ser radical, basta redirecionar a política externa americana, nos assuntos relacionados ao comércio e ao investimento.

?Márcio Pereira Nunes é professor de economia da Mackenzie

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