Eleitores mostram que é possível discutir política respeitando todas as opiniões

O que mais se discute hoje é política e religião. O DIA convidou eleitores de Crivella e Freixo para debater sem ultrapassar o limite da boa convivência

Por O Dia

Rio - Futebol, política e religião não se discutem. A expressão-símbolo do país no regime militar, aparentemente inofensiva, mas que servia de argamassa para a manutenção do silêncio durante a ditadura, caiu por terra faz tempo. No Brasil de hoje e no Rio de Janeiro, em particular, o que mais se discute é política e religião. Além do Fla-Flu desta quarta-feira, é claro. As discussões, no entanto, não raramente ultrapassavam o limite da boa convivência e os debates, seja na televisão, no trabalho ou no balcão de bar, acabam com um único vencedor: a intolerância.

O DIA, então, decidiu convidar para a mesma mesa um eleitor de Marcelo Crivella (PRB), outro de Marcelo Freixo (Psol), que têm suas diferenças políticas e ideológicas, mas dois importantes pontos em comunhão (sem trocadilho): são evangélicos e não dispensam o bom debate político.

“Quando eu ouço que o Rio levou para o segundo turno o ruim e o péssimo, digo que é o contrário: levou o bom e o mais preparado. Dois humanistas, um de esquerda e outro de direita, mas que são ótimas opções para a cidade”, avalia o ator Gabriel Muller, de 28 anos, natural de Irecê, no sertão baiano, onde conheceu Marcelo Crivella no seu projeto chamado de Nova Canaã, que fez aquele jovem criado na Igreja Batista se encantar pelas ideias do senador do PRB.

Raphael e Gabriel divergem em alguns temas que tomam conta do debate político%2C mas sempre respeitosamenteLuiz Ackermann / Agência O Dia

“Acho fundamental ouvir quem pensa diferente. A gente precisa aprender a dialogar, a entender o outro para poder construir um país melhor para todo mundo. É isso o que a gente quer fazer se o Freixo for eleito. O programa de governo foi feito ouvindo mais de 5 mil pessoas, de todas as regiões da cidade”, diz Raphael Godoi, de 19 anos, que decidiu estudar Ciências Sociais após ter sido, em 2013, um dos mais jovens a organizar os protestos que tomaram as ruas do país.

Raphael e Gabriel divergem em alguns temas que tomam conta do debate político, mas sempre respeitosamente. Avessos ao consumo de drogas ilícitas, mas cercados de amigos que o fazem, eles concordam que numa cidade como o Rio de Janeiro é preciso discutir cada vez mais temas como a regulamentação do uso destas substâncias.

“Acho que a cidade não está preparada para isso (regulamentação) e tem que haver um intenso debate para que a gente possa decidir se é o caminho ou não”, diz Gabriel.

Raphael, por sua vez, não só pede o debate como também pressa para que ele aconteça, de preferência com uma mudança na atual política de combate às drogas.

“Ninguém aqui acha que usar droga é legal, que faz bem. O problema é que o número de mortos pela violência é muito maior que pelo consumo. Muito mais pessoas sofrem com este modelo do que seria se a droga não fosse um problema de segurança pública, mas de saúde. Precisamos cuidar dos dependentes, não de violência”, diz.

Se discutir política e religião não é problema, misturar as coisas, sim. Os dois concordam com a questão, mas cada um defendendo o seu candidato.

“O que não pode é o político ser religioso. Depois de eleito, ele é servidor público e tem de servir a todos. Sou contra político que usa o fato de ser pastor para se eleger. O Crivella nunca usou o cargo para beneficiar a Universal”, prega Gabriel.

Raphael contesta a afirmação em relação à atuação do senador, mas reafirma a importância da política e da religião: “Ser evangélico não me isenta de fazer política. Pelo contrário. Mas prego a luta pelo direito de todos, não de alguns”, acrescentou.

Casamento gay? Pode

Tanto Raphael como Gabriel concordam que é preciso garantir os direitos LGBTs, como a união civil entre pessoas do mesmo sexo: “A igreja não tem que se meter nisso. Os direitos têm de ser garantidos. O que não pode são os religiosos serem obrigados a aceitar gays em seus templos. Cada religião tem seus dogmas. Na minha concepção isso é pecado”, diz Gabriel. Raphael quase concorda: “Os direitos têm de ser respeitados, independentemente do que eu acho como cristão. Tenho é que respeitar e entender o direito dos outros”, diz.

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