Comandante da PM é exonerado após invasão na Alerj

De acordo com a Polícia Militar, a mudança já estava prevista pelo comando da corporação

Por luana.benedito

Rio - Um dia após a invasão da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro por servidores públicos, em sua maior parte policiais e bombeiros, o comandante Rodrigo Sanglard foi exonerado do comando do Batalhão de Policiamento em Grandes Eventos (BPGE), principal unidade que fazia a segurança ao Palácio no dia do protesto.

A manifestação contra o pacote anticrise do governo contou com cerca de 15 mil manifestantes e, após três horas de ato, cerca de 400 pessoas entraram no Palácio. Durante a ação, a sala da vice-presidência foi depredada e, segundo perícia, alguns objetos, como telefones, foram roubados.

A assessoria de imprensa da Polícia Militar afirmou que a mudança do comando do batalhão já estava programada. No entanto, o coronel Sanglard escreveu uma mensagem para a tropa, lida durante a sua passagem de comando.

Manifestantes invadiram Alerj durante ato contra pacote anticrise do estado. Sala da vice-presidência da Casa foi destruída na tarde desta terça-feiraFoto%3A Daniel Castelo Branco / Agência O Dia

Nela, ele diz que "os motivos (da troca de comando) estão relacionados aos acontecimentos do dia 08 de novembro, que superaram negativamente as expectativas das autoridades relacionadas e com competência direta ao assunto".

O oficial também afirma que pessoas armadas estavam no protesto e considerou o resultado positivo pelo fato de ter terminado sem presos e feridos. Na carta, em tom de desabafo, ele diz que os danos incomodaram o presidente da Casa, Jorge Picciani (PMDB), e criticou sua postura.

"Encerramos nossas atividades com o admirável número de zero policiais e zero manifestantes mortos ou feridos. Nós consideramos isso um sucesso absoluto! Mas outros se preocupam mais com mesas, cadeiras e computadores", escreveu.

Confira a íntegra da carta da passagem de comando:

Bom dia a todos!!!
1 ano, 6 meses e 14 dias... Não parece que foi ontem, não!!!
Parece que tem pelo menos o dobro do tempo.
Escolhi ser militar e gosto de ser militar. E como tal compro as ordens a mim dirigidas, desde que não sejam absurdas ou ilegais. Ser militar é defender, mesmo com o risco da própria vida, a constituição, leis e normas que garantem o bem estar e a liberdade de uma nação ou sociedade.
Hoje transmito o comando do BPGE, sem nenhum absurdo ou arbitrariedade, cumpro uma ordem totalmente legal!!
Estamos conscientes de que os motivos estão relacionados aos acontecimentos do dia 08 de novembro, que superaram negativamente as expectativas das autoridades relacionadas e com competência direta ao assunto.
De fato nós também não queríamos acreditar que uma manifestação, que era para ser pacífica, evoluísse para uma invasão ao plenário da ALERJ.
O dano causado ao patrimônio público da ALERJ, incomodou sobremaneira o Sr. Presidente daquela Casa Legislativa, bem como foi amplamente divulgado pela mídia.
Independente de valores, são bens materiais que podem ser substituídos.
Na nossa visão de gestores de segurança em grandes eventos, onde estão inseridas as manifestações, avaliamos que o dia se encerrou com um grande e absoluto sucesso.
Éramos 340 PMs, distribuídos em diversas formas de policiamento, onde o BPGE era o protagonista principal. Entre os manifestantes que totalizavam o número compreendido entre 10 e 12 mil, PMs, BMs, PCs e CEAPs predominantemente.
Arisco um palpite de que havia pelo menos mil pessoas armadas.
E, por volta das 17:30h, depois de todos os acontecimentos desagradáveis, encerramos nossas atividades com o admirável número de zero policiais e zero manifestantes mortos ou feridos .
Nós consideramos isso um sucesso absoluto!! Mas outros se preocupam mais com mesas, cadeiras e computadores.
Será que alguma entidade ligada aos direitos humanos fará alguma referência elogiosa a isto?!?! Creio que não.
De qualquer forma saber que nosso trabalho talvez tenha evitado um deslocamento triste do nosso Comandante Geral, ou do Comandante Geral dos Bombeiros, ou do Chefe da PC, ou do Secretário da SEAP, ao cemitério Jardim da Saudade, isto não tem preço!!!
Em meu último ato como Comandante do BPGE, na tarde de ontem, dia 09 por volta das 16h estive presente no Quartel General do Corpo de Bombeiros, onde fui cordialmente recebido pelo Senhor Cel BM Robadey, Chefe do EMG. A ele entreguei, conforme havia me comprometido com bombeiros militares na ALERJ, uma reivindicação institucional, para a análise e deliberação, respeitando se é claro, a autoridade a ele investida.
Quero agradecer a Deus que tem me atendido sempre com sua medida certa!! Menos do que eu quero, porém bem mais do que mereço.
Ao meu pai, Djalma em memória, que foi o exemplo de dignidade perfeito para minha vida.
A minha mãe, Maria Helena, que com seus métodos de vigilância e um par de chinelos de couro de baixa letalidade, me mantiveram coberto e alinhado.
Ao meu irmão, Alexandre, que é um grande amigo e com a palavra amigo já descreve todas as suas virtudes.
A minha esposa, Sandra, que é a melhor do mundo e não devo fazer muita propaganda.
A minha filha, Bárbara, que faz jus ao nome, e por quem me empenho para fazer dela uma verdadeira cidadã para o mundo.
Lamento a velocidade dos últimos acontecimentos. Gostaria de ter tido a oportunidade de avisar a minha esposa e minha mãe sobre a minha exoneração, ao invés delas terem recebido a notícia pela impressa assim como aconteceu com a maioria dos meus amigos.
Gostaria de ter tido a oportunidade de trazer aqui hoje, minha mãe, minha esposa e minha filha. Poder apresenta las aos senhores e plagiar o Major Fonseca, nosso Comandante de Corpo de Alunos na Escola de Formação de Oficiais, apresentando as como 1º, 2º e 3º artigos de qualquer código de ética e conduta social.
Agradeço aos oficiais e praças do BPGE, pela fidelidade e companheirismo, que foram de vital importância para a dinâmica da unidade.
Agradeço ao Sr. Comandante Geral, Cel Wolney Dias, por ter me dado a oportunidade de explicar lhe pessoalmente os fatos ocorridos no dia 08, me concedendo algumas horas dentro de sua agenda onde o dia de 24h se torna ínfimo. E por seu enorme empenho junto aos Deputados Estaduais, para que se sensibilizem com nossa causa.
Agradeço ao Sr. Cel Lima Freire Chefe do EM e ao Sr. Cel Henrique Sub Chefe Operacional pela confiança em mim depositada e por nunca terem me negado um minuto que fosse para ponderações e esclarecimentos de demandas.
Agradeço ao Sr. Cel Beloni que não só confiou no meu trabalho, como me concedeu grande liberdade de planejamento e execução, ao ponto de até nos falarmos pouco, pois apenas confirmávamos as demandas, em uma linha de raciocínio extremamente semelhante.
Agradeço aos meus motoristas e minhas secretárias, que pela proximidade, compartilharam momentos de alegria e mau humor.
Por fim, agradeço a todos que fazem parte da minha vida e contribuem com minha carreira profissional, inclusive a todas as mensagens de solidariedade, carinho e motivação, que foram tantas que ainda não consegui ler a maioria. Numa coleção de amigos não existem figuras repetidas.
Ao meu sucessor, Ten Cel Peixoto, a quem transmito o comando com grande satisfação, desejo muita paz, sucesso e energia.
Transmito o BPGE em um momento muito delicado. As manifestações têm tomado proporções extremamente inconvenientes e é visível o desgaste da tropa incluindo os oficias, sua capacidades físicas, técnicas e psicológicas, estão atingindo o limite do suportável.
Todavia diante da capacidade técnica, competência e adaptabilidade do Ten Cel Peixoto, entendo que todas as adversidades são apenas um toque de tempero ao seu desafio.
Para encerrar repetirei aqui um juramento que fiz a Bandeira há muitos anos.
“Prometo pela minha honra, fazer o melhor possível, para cumprir o meu dever, para com Deus e minha Pátria, ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião e obedecer a Lei Escoteira”.
Eu tinha 12 anos.
Os demais juramentos que fiz, com muito orgulho foram à confirmação deste.
Que Deus ilumine a todos nós.

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