Sem hospitais, Baixada ‘exporta’ pacientes

Rede federal do Rio recebe casos que poderiam ser cuidados na própria região

Por O Dia

Rio - Onivaldo Brambila, 67 anos, sofreu um infarto no dia 28 e teve que ser atendido na emergência do Hospital de Bonsucesso porque, em Mesquita, onde mora, não tem hospital. “Nem adianta procurar, porque não tem nada em Mesquita. Só tem posto de saúde e a UPA, quando tem médico. Na Policlínica, tem que marcar com um mês de antecedência pra conseguir ser atendido”, contou. “Passando mal como estava, imagina se eu fosse esperar uma ambulância. Tive que tirar do bolso e vir de carro”, disse.

Georgina Ferreira no Into%3A com pé quebrado%2C não foi atendida na PosseSeverino Silva

Em 2014, Onivaldo teve sua forte dor nas costas diagnosticada como problema na coluna e fez fisioterapia por um ano, até descobrir que a dor era provocada por um cálculo renal. Mas só soube disso porque pagou R$ 600 por uma tomografia. Como não encontrou urologista em Mesquita, novamente foi tratado no Hospital de Bonsucesso.

Casos como o dele são frequentes. Com a carência de hospitais na Baixada, cada vez mais pessoas se deslocam até as unidades de saúde federais, que registraram aumento significativo no número de atendimentos. Segundo o Ministério da Saúde, 35% dos pacientes de emergência do Hospital dos Servidores e 30% dos atendidos no Andaraí são da Baixada. Em Bonsucesso, o número chega a 60% dos pacientes da emergência, sendo 20% de Duque de Caxias.

Morador de Belford Roxo, o pintor Luiz Cláudio do Amaral, 52, precisou ser socorrido às pressas no Hospital de Bonsucesso. “Estava sentindo muita dor no peito no dia 7, fui no Hospital do Joca, me deram medicação e dispensaram. Fui trabalhar com dor no peito e um bombeiro me trouxe para a emergência de Bonsucesso. Doía muito. Se tivesse vindo de ônibus, teria morrido na rua”, contou. “Na Baixada não tem nada. Tinha que ter hospitais lá”, disse.

A carência de hospitais na Baixada “representa uma dívida que os governos têm com a população da região, em função da omissão, da insensibilidade e da negligência de não terem tomado medidas políticas para viabilizar programas de assistência à saúde dessa população”, diz o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro (SINMED-RJ), Jorge Darze. “Lamentavelmente, a Baixada sempre foi uma área que representa um deserto sanitário, onde a quantidade de unidades de saúde é inversamente proporcional à quantidade de habitantes”, afirmou Darze. 

Hospital da Posse alagado após chuva forte na semana passadaDivulgação

Precariedade no H. da Posse

Após levar um tombo e fraturar o punho em três partes, a aposentada Vera Lúcia Albuquerque, 65, passou 14 dias no Hospital da Posse, em Nova Iguaçu. “Lá está precário demais. Falta medicação. A gente com dor e os familiares precisam levar remédios porque lá não tem”, contou ela, que ficou 48 horas aguardando internação. Transferida para o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), na Região Portuária, quatro dias após ser comunicada de que a Posse não possuía material para realizar a cirurgia, sentiu-se aliviada.

Aos 97 anos, Georgina Prudência Ferreira fraturou o pé esquerdo e foi levada pela família ao Hospital da Posse. “Toda vez marcava a cirurgia e nada. Sempre davam uma desculpa, até que disseram pra gente que o hospital iria fechar por falta de recurso e ela foi transferida pra cá”, contou o neto, Wilton de Oliveira Ferreira, 34, no Into. 

Sistema de regulação faz transferência

Os pacientes chegam aos hospitais federais por meio da regulação nacional de parentes e, principalmente, do Sistema Estadual de Regulação (SER). “A rede federal está localizada no município do Rio, mas integra o SUS no estado. Quando aumenta a demanda do estado, naturalmente aumenta a demanda da rede federal, das emergências. Temos conseguido apoiar o estado com a dedicação dos nossos servidores, que têm compreendido a necessidade de expandir a assistência aos pacientes na região”, disse o diretor de gestão hospitalar do Ministério da Saúde, Jair Veiga.

O Into tem pactuados com o estado 20 leitos para trauma do idoso, 14 para fraturas diversas, cinco para traumas de média complexidade e dois para cirurgias de coluna.