Por O Dia

Foi uma ação rápida que não deveria, mas pegou os Estados Unidos de surpresa. Guerrilheiros sunitas avançaram rapidamente sobre Mosul e Tikrit. Em poucos dias, tomaram as duas cidades enquanto o exército iraquiano saía correndo sem oferecer resistência. O exército, treinado pelos norte-americanos com um investimento calculado em mais de US$ 20 bilhões, não tem lado na disputa histórica entre sunitas e xiitas que Saddam Hussein manteve sob controle, com um estado secular, enquanto esteve no poder. Mas foi a primeira providência da ocupação norte-americana no Iraque: desmontar o exército. Toda a estrutura militar foi desfeita.

De soldado a general, todos perderam o emprego de uma hora para outra. Em seguida, os especialistas do Pentágono montaram uma força de segurança com representantes dos diferentes grupos que dividem o país. Sem identidade, ela não vê motivo para lutar ou que lado defender.

Agora, o presidente Barack Obama que fazia planos de encerrar o mandato com o trunfo de ter encerrado duas guerras ensandecidas se vê diante da pergunta difícil. Como responder ao pedido de intervenção militar direta, feito pelo primeiro ministro iraquiano Nouri al-Maliki? Aparentemente, o vizinho Irã, país dos Aiatolás xiitas, não esperou. Já teria enviado dois mil homens para combater os guerrilheiros sunitas. Segundo o jornal britânico The Guardian, até mesmo o principal general da Guarda Revolucionária Iraniana já está no país para ajudar a organizar o contra-ataque.

O caos em que o Iraque mergulha agora já era previsível, desgraçadamente. Responsável pela situação que se criou no país, os Estados Unidos não têm, agora, saída possível. Uma intervenção militar direta seria desastrosa. Tanto para o Iraque como para Washington. Vem aí a eleição presidencial. Qual democrata teria chances na urna se Obama retomar uma guerra que os eleitores odeiam? O presidente prometeu tomar uma decisão nos próximos dias.

O medo de que a opção seja a força é palpável. Na internet, já circulam petições pedindo assinaturas para enviar à Casa Branca uma prova indiscutível da vontade popular. A saída bélica não leva a nada, dizem as petições. Obama já deixou claro que não enviará soldados novamente ao Iraque. Mas resta a ele, sempre, a opção devastadora: ataques aéreos. Com aviões pilotados à distância ou mesmo com os avançados brinquedos militares que o país tem de sobra. Mas por interesse próprio, pode ser também que a Casa Branca decida não fazer nada.

Segundo o professor de história da Universidade Tufts, Gary Leupp, desde 2006 os Estados Unidos são favoráveis ao fracionamento do Iraque em três partes. Uma área para os Kurdos, que já dominam boa parte do norte do país, outra para os Xiitas e uma terceira para os Sunitas, com um governo central para administrar as três repúblicas semiautônomas. O plano foi apresentado, pela primeira vez, pelo ex-presidente do Conselho de Relações Exteriores, Leslie Gelb, em parceria com o então senador Joe Biden, hoje vice-presidente do país.

Ao mesmo tempo, Washington tem dois objetivos claros. Garantir estabilidade dos preços do petróleo e evitar a expansão do grupo ligado à rede terrorista al-Qaeda, que comanda o avanço rumo a Bagdá. Se os guerrilheiros sunitas tomarem as refinarias e oleodutos da região de Mosul, o preço do petróleo mundial pode subir com impactos imprevisíveis na já frágil economia do primeiro mundo. Se não fizer nada contra a ofensiva guerrilheira, os Estados Unidos podem assistir de camarote a formação de um novo estado controlado por um grupo religioso com perfil semelhante ao da al-Qaeda de Osama bin Laden.

Ironia trágica. A mentira do governo Bush, ao criar uma ligação que nunca existiu entre Saddam Hussein e o grupo terrorista que organizou o Onze de Setembro, pode agora se tornar uma realidade. O ISIS (Estado Islâmico do Iraque e Levante), que tomou Mosul e Tikrit na última semana, é uma inspiração da al-Qaeda. A profecia “Bushiana” ameaça se tornar realidade a passos largos com um custo humano incalculável. Mas este não costuma entrar na conta das aventuras norte-americanas para além de suas fronteiras. Basta lembrar os desastres mais recentes: a derrota no Vietnã, a matança em El Salvador e Nicarágua, o apoio às ditaduras latino-americanas... A lista é longa e foi escrita com muito sangue. E agora os norte-americanos se perguntam: por que deixamos tantos dos nossos lá naquela terra? Por que temos agora tantos veteranos fisicamente destruídos, emocionalmente massacrados, um índice de suicídios e violência doméstica destes mesmos veteranos tão alto? Eles não costumam se perguntar quantas vidas interromperam do lado de lá. Que consequências de longo prazo promoveram com a ocupação militar de outro país. Que mudanças definitivas produziram em toda a região.

Mais grave ainda para a história do país, para evitar que ela continue se repetindo dessa maneira, é a falta de punição. O hoje professor universitário Lawrence Wilkersen considera o maior erro do governo Obama não ter dado sinal verde ao Departamento de Justiça para investigar e julgar os crimes de guerra e contra a humanidade cometidos pela administração Bush. E Wilkersen não era nada mais nada menos do que chefe de gabinete do Secretário de Estado Colin Powell no primeiro mandato de Bush. Ele participou de cada passo da preparação e deflagração da guerra contra o Iraque. Participou, inclusive, do momento mais infame da vida do general Powell: a montagem da apresentação fraudulenta, diante das Nações Unidas, para convencer o mundo de que Saddam Hussein tinha um arsenal de armas de destruição em massa e, por isso, uma invasão seria justificada.

Powell era o rosto mais confiável à disposição do governo Bush e se prestou ao papel que lhe foi confiado. Não convenceu a ONU, que votou contra a invasão. Mas convenceu os norte-americanos, com a ajuda da imprensa do país. Wilkersen recebeu uma carta de Powell agradecendo todo o trabalho feito nos preparativos da trágica apresentação das provas falsas. Recebeu, rasgou e jogou no lixo diante do general. Agora é a vez de Obama decidir se contribui para a acumulação desse lixo histórico ou se busca uma saída mais honrosa para a sinuca de bico em que Washington se encontra.

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