Dilma: 'Se ganhar, vou propor um pacto; se perder, sou carta fora do baralho'

A presidente não deixou claro se a proposta de repactuação será apresentada após a votação do impeachment

Por O Dia

Brasília - A presidente Dilma jura que está calma, que não toma remédios para dormir e que, se sofrer o impeachment, se aposenta e volta para seu apartamento, no bairro da Tristeza, em Porto Alegre. Em conversa com um grupo de jornalistas ontem, no Palácio do Planalto, Dilma prometeu fazer amplo pacto nacional contra a crise, caso seu governo sobreviva ao processo de impeachment. Todas as forças políticas, inclusive os partidos de oposição, seriam convidadas para o diálogo. “Mas, se eu perder, sou carta fora do baralho”, desabafou. 

A presidente não deixou claro se a proposta de repactuação será apresentada após a votação do impeachment na Câmara ou no Senado. “Digo qual é o meu primeiro ato pós-votação na Câmara: a proposta de um pacto, de uma nova repactuação entre todas as forças políticas, sem vencidos e sem vencedores. Seja pós-Câmara mas também pós-Senado, sobretudo”, disse Dilma. A proposta de repactuação inclui os oposicionistas. “A oposição existe”, declarou.

Presidente Dilma em roda de entrevistas com jornalistas de Brasília%2C ontem no Palácio do PlanaltoRoberto Stuckert Filho/PR

Dilma também considera essencial a inclusão de trabalhadores e empresários nesse amplo diálogo nacional contra o colapso político e econômico do país, após a votação do impeachment. “Não haverá paz social no País sem colocar na mesa também trabalhadores e empresários”, analisou Dilma.

CONTABILIDADE DE TRAIÇÕES

Com tranquilidade, bom humor e vestindo camisa preta com bolinhas brancas, Dilma se mostrou confiante, a despeito das notícias negativas dos últimos dias, como a decisão do PP e do PRB de desembarcar do governo, anunciada na terça-feira. Ontem, o PSD de Gilberto Kassab, ex-prefeito de São Paulo e atual ministro das Cidades, também anunciou a ruptura. O PTB foi no mesmo caminho. “É muito difícil, nesse momento, dizer que um partido desembarcou do governo. Tem situações variadas. Os partidos saem do governo e as pessoas ficam”, analisou.

De acordo com contabilidade realizada pelo jornal ‘Estado de S. Paulo’ na noite de ontem, a oposição precisa apenas de 16 votos para completar os 342 necessários para a aprovação do relatório que pede o afastamento da presidente Dilma.

Ela disse que não acredita nessas contagens e que vai lutar até o fim — e em todas as instâncias possíveis — pela manutenção do mandato. Descarta fazer como o ex-presidente Collor, que renunciou depois de ser derrotado na Câmara, em 1992, e pouco antes de começar a ser julgado pelo Senado.
“O governo vai lutar até o último minuto do último tempo contra esta tentativa de golpe que estão tentando colocar contra nós, através de um relatório que é uma fraude”, criticou a presidente.

SEM REMÉDIO NEM INSÔNIA

Dilma comparou o momento a uma guerra psicológica na qual os dois lados tentam usar os números a seu favor para influenciar os indecisos. “Nós agora, nessa reta final, estamos sofrendo uma guerra psicológica que tem o objetivo que é construir um efeito dominó”, disse.

Dilma não descartou a possibilidade de recorrer ao Judiciário em caso de derrota no Congresso. “Não garanto ainda o que nós vamos fazer, porque não tenho a avaliação completa do jurídico do governo. Não sabemos se vamos. E se formos, quando”, disse.

Na conversa, que durou mais de duas horas, Dilma disse que segue tranquila. “Se alguém está muito ruim, levanta e vai andar de bicicleta às 10 para 6 da manhã, todo dia como eu faço?”, questionou.  A presidente afirmou que dorme bem, sempre por volta das 22h30, e que não toma remédios para adormecer. “Se eu tomar um remédio para dormir, tem um problema: nunca mais vocês vão me ver acordada”, brincou. “Se eu achasse que tinha cometido alguma coisa que merecesse tudo isso, não dormia não”.

Dilma admitiu, no entanto, que a presidente da República, diante da tensão do cargo, tem que ser uma pessoa “uns dois degraus de tranquilidade acima”. Perguntada sobre seus planos para o futuro em caso de derrota, a presidente respondeu sem vacilações. “Vou embora para a minha casa em Porto Alegre. Tenho direito à aposentadoria”, brincou.

Parlamentares fazem bolão 

Nada é mesmo muito sério na Câmara. Ontem, deputados da oposição criaram o “bolão democrático” sobre o impeachment. As apostas custam R$ 100. Encabeçado pelos deputados do Solidariedade Paulinho da Força (SP) e Carlos Manato (ES), o bolão vai premiar apenas quem acertar integralmente o resultado.

“Se ninguém acertar, o dinheiro vai ser doado para caridade”, afirmou Manato. A brincadeira dos parlamentares começou com sete apostas, mas Manato afirmou que no final serão “pelo menos 10 páginas” e garantiu que a base governista será convidada a participar. Por enquanto, as apostas são de 370 a 396 votos favoráveis ao afastamento contra uma média de 110 votos. Até ontem, aliados do Planalto não haviam aceitado a brincadeira.

Ainda ontem, o governo decidiu que todos os ministros que têm mandato de deputado federal deverão voltar à Câmara para votar contra o impeachment. Um desses ministros é Patrus Ananias, do Desenvolvimento Agrário. Ele é filiado ao PT e elegeu-se deputado por Minas. “Estarei de volta à Câmara exercendo, ainda que nessa situação excepcional, o mandato que o povo me confiou. Permaneço lutando, sem cessar, pela Manutenção Democrática, acima de todos os interesse pessoais", escreveu Patrus, no Facebook.

Os três ministros do PMDB com mandato na Câmara também decidiram deixar suas pastas para votar contra o afastamento de Dilma. São eles Celso Pansera, da Ciência, Tecnologia e Inovação; Marcelo Castro, da Saúde; e Mauro Lopes, da Aviação.


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