Inovação: o discurso e a prática

O volume de financiamentos disponíveis para inovação foi cortado praticamente à metade e redistribuído para os fabricantes de ônibus e caminhões e produção de bens de capital

Por O Dia

Como se sabe, o aumento da produtividade — aquela que fará a nossa indústria se tornar mais competitiva em relação aos concorrentes internacionais, pode ser alavancada de duas formas: pela mão de obra mais eficiente, ou a partir de novas tecnologias, que tornam a produção mais eficiente. Mas está difícil de entender a prioridade que o governo afirma dar para a inovação tecnológica como ferramenta para ampliar a competitividade e, em consequência, alavancar o crescimento econômico. A despeito do diagnóstico de que a produtividade brasileira está estagnada, o governo cortou pela metade a disponibilidade de empréstimos subsidiados para inovação. Também vem cortando paulatinamente os recursos a fundo perdido dirigidos à área — as subvenções. Ao compor uma parte do custeio de um projeto, a subvenção viabiliza pesquisas de alto risco: aquelas que têm chances grandes de não dar certo, mas que, quando dão, propiciam grandes saltos de eficiência.

Glauco Arbix, presidente da Finep — empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia encarregada de, junto com o BNDES, financiar projetos de inovação — colocou em um evento recente o dedo em uma das feridas. Arbix, para quem o Brasil deve se empenhar para investir R$ 50 bilhões por ano (1% do PIB) em ciência e tecnologia, afirmou: “É difícil, a economia não sugere este tipo de arrojo, mas eu prefiro fazer este tipo de intervenção a financiar caminhão e implemento agrícola com taxas mais baratas do que quem faz tecnologia e inovação. É um erro fazer isso”. Dias depois, o Ministério da Fazenda divulgou uma decisão do Conselho Monetário Nacional que vai precisamente no sentido oposto ao que propõe Arbix, considerado uma referência na área. Foi feita uma redistribuição dos recursos do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), do BNDES, destinado ao financiamento de projetos de investimento com taxas subsidiadas. O volume de financiamentos disponíveis para inovação foi cortado praticamente à metade (caiu de R$ 8,870 bilhões para R$ 4,870 bilhões) e redistribuído para os segmentos produtores de ônibus e caminhões e produção de bens de capital (excluídas as micro, pequenas e médias empresas). Dos quatro segmentos que sofreram cortes, inovação foi o segundo mais sacrificado. “A razão dessa alteração é haver alguns programas com menor disponibilidade orçamentária e outros com maior”, informou a Fazenda. No mesmo evento, Arbix apontou que as subvenções caíram de R$ 500 milhões em 2010 para R$ 360 milhões neste ano. “Com o crédito, a empresa vai fazer o arroz com feijão. É importante, mas não basta. Precisa fazer alguma coisa um pouco mais sofisticada”, disse ele Arbix.

O paradoxo do emprego

No fórum de discussões do FMI, o desemprego é uma das principais preocupações globais. Os economistas Davide Furceri e Prakash Loungani apontam: “Se os desempregados formassem seu próprio país, ele seria o quinto maior do mundo. Dos cerca de 200 milhões de pessoas à procura de trabalho, metade é de mercados emergentes e cerca de um quarto está nas economias avançadas”. De 18 países selecionados, os EUA mostram a mais elevada correlação entre criação de empregos e crescimento, seguidos de Austrália e Canadá. Na ponta oposta, Turquia e Brasil. No caso brasileiro, a combinação é de baixo crescimento com um inacreditavelmente baixo desemprego. A pesquisa dos dois economistas mostra que, para economias avançadas, para cada ponto percentual de crescimento, em média, o desemprego cai 0,3 ponto percentual. Nas economias emergentes, a relação entre o emprego e crescimento é quase tão forte: um ponto percentual adicional no PIB reduz a taxa de desemprego 0,25 ponto. Ou seja, o crescimento não é “uma panaceia”, mas é “parte essencial da cura para o desemprego”, dizem os dois economistas.

Pertencemos a um pequeno grupo de países fora da curva, onde a correlação é negativa: o crescimento cai e o emprego sobe. É uma boa exceção sem dúvida, e certamente está relacionada aos esforços do governo para incentivar setores da economia e o consumo. A mais recente Pesquisa Mensal de Emprego mostrou uma queda da taxa de desemprego de 4,8% em setembro para 4,7% em outubro, Mas como todo dado geral, guarda desigualdades. O desemprego na indústria tem aumentado. Onde ele mais cresce — serviços e construção civil — estão os salários mais baixos e a menor produtividade. A julgar pelo que apontam analistas e os resultados mais recentes do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), estamos chegando ao limite desse conforto. Em outubro, o cadastro apontou uma retração de 30.283 postos, uma queda de 0,07% nas vagas com carteira assinada em relação ao mês anterior. O tombo fica ainda mais evidente quando comparado a outubro de 2013, período em que foram criados 94.893 empregos. O desemprego não nos preocupa — ainda. Para analistas, é questão de tempo para que a relação entre crescimento e geração de empregos volte a prevalecer no país.

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