The Who dá aula de rock e Guns anima plateia com show de mais de 3h

Palco Mundo ainda recebeu Titãs com repertório variado e Incubus

Por O Dia

Rio - Sim: ficou ruim para o Guns N Roses depois do The Who. A aula de rock que a banda britânica, com mais de 50 anos nas costas, deu neste sábado no palco do Rock In Rio é para poucos. Ficou ruim, mas não ficou impossível: o Guns reuniu muitos fãs, animou a plateia com um show de mais de três horas e, pela primeira vez em um bom tempo, Axl Rose conseguiu manter a voz durante quase toda a apresentação. Que trouxe o vocalista reunido a dois integrantes da formação clássica (Slash na guitarra e Duff McKagan no baixo).

Guns N' Roses fez show de mais de três horasDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Axl foi simpático com a plateia: despediu-se do público usando um chapéu de cangaceiro, perguntou se a turma havia gostado do The Who (antes, o Who já havia anunciado que vinha por aí o show dos "amigos" do Guns N Roses e disse para a plateia se divertir e ser feliz) e, de fato, a ideia da banda, de fazer um show enorme, permite ao público encarar a apresentação do jeito que quiser.

Os momentos em que surgem músicas do disco 'Chinese Democracry', gravado por Axl sem ninguém da formação original, dão um descanso na turba - é hora de pegar uma cerveja e circular. O repertório permitiu lembrar de várias músicas boas do par de discos 'Use Your Illusion', de 1991: 'Coma', 'You Could Be Mine' e 'Civil War', além do hit 'November Rain', estavam lá. Acabou, à sua maneira, sendo uma aula de rock para quem acompanhava a banda no auge da MTV Brasil e para quem ia aos shows do grupo no começo dos anos 1990. Cada geração com seu grande clássico.

Sexto dia do festival de música na Cidade do Rock na Barra da Tijuca no Rio de Janeiro. Apresentação da banda Guns N' RosesDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

The Who é difícil até de colocar em palavras. Seja pela voz de Roger Daltrey - que dura o show todo e está bem mais potente que a de Steven Tyler, do Aerosmith, que tocou no mesmo palco dois dias antes -, seja pela simplicidade e pela musicalidade (e pelo gênio, por que não?) do guitarrista e compositor Pete Townshend.

Ou pelo fato do Who, indo muito além do rock, ter levado a música e suas possibilidades às útlimas consequências. Trechos das óperas-rock 'Tommy' (1969) e 'Quadrophenia' (1973) estavam lá para garantir que a experiência seria emocional e marcante para todos os que se sentiram tocados pelo Who na época certa. Mas havia muito mais.

Banda britânica fez show épico no Palco Mundo%2C na sexta noite de festival Daniel Castelo Branco / Agência O Dia

Pete Townshend abriu o show com um "fuck, fuck, fuck, Rock In Rio" e prometeu que o público iria voltar para casa "em pedaços". Para quem se sentiu tocado por músicas como 'The Kids Are Alright', '5:15', 'Baba O'Riley', 'Behind Blue Eyes', era isso mesmo - hinos da incompreensão e do sentimento de inadequação, com Pete, autor de quase todo o repertório do grupo, sempre tentando enxergar além.

Townshend, em forma (só entrou errado em algumas músicas, mas ninguém reclamou ou reclamaria), fazia o gesto de "rodar o braço" para tocar. Roger Daltrey, mais contido, girava o microfone algumas vezes, mas deixava a comunicação com a plateia para o companheiro. O guitarrista, vendo a plateia lá de cima, brincava que não era justo o público estar tão apertado - fãs do grupo se espremiam lá na frente.

Banda britânica fez show épico no Palco Mundo%2C na sexta noite de festival Daniel Castelo Branco / Agência O Dia

O Who cortou algumas músicas do repertório - 'The Seeker', que está no repertório do Guns e foi tocada pela banda às 4h, e 'Emminence Front' sumiram - mas em compensação o público carioca ganhou 'Bargain', a música preferida de Townshend do disco 'Who's Next', de 1971 (o próprio disse isso no palco). Showzão.

Abrindo o Palco Mundo, Titãs pareceram condensar num show de uma hora todos os protestos que já passaram por palco e plateia do festival. A banda nem precisaria puxar um corinho citando nominalmente algum político, já que tocaram 'Polícia', 'Aluga-se', de Raul Seixas (o verso "a Amazônia é o jardim do quintal" foi cantado pela plateia alguns decibéis a mais que o resto da canção), 'Lugar Nenhum', 'Desordem' (fechada, enfim, com "fora Temer" berrado pela plateia) e 'Vossa Excelência' (dedicada pela banda "à classe política brasileira"). As três músicas novas ('Me Estuprem', 'A Festa' e 'Doze Flores Amarelas') são dignas. Beto Lee, substituto de Paulo Miklos na banda (o ex-vocalista vinha tocando guitarra nos shows desde quando os Titãs passaram a ser um quinteto), segurou bem a onda nas palhetadas e nos solos. Grande show.

Incubus é tido como a grande surpresa da geração rap metal dos anos 1990 - tem quem diga que são eles a melhor banda da turma que inclui Linkin Park e Limp Bizkit. Mostraram técnica no Palco Mundo (no show que antecedeu o The Who), composições bacanas ('Megalomaniac', entre elas) e encontraram seu público, ainda que numa noite em que a galera queria mesmo era ver os shows de encerramento.

No Palco Sunset, destaque para a boa apresentação do Cidade Negra, acompanhado de Digital Dubs e Spok Frevo Orquestra, tocando músicas de Gilberto Gil. O que poderia ser um desencontro de grandes talentos no nível de Ney Matogrosso e Nação Zumbi acabou se revelando um excelente show que pede turnê pelo Brasil. E Karol Conká fez participação empoderada no show da banda colombiana Bomba Estéreo.

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