Em terreno movediço

O mercado de câmbio respondeu à ascensão vertiginosa da candidata Marina Silva nas primeiras pesquisas depois de confirmado o seu nome pelo PSB com venda maciça de dólar

Por O Dia

Ela resgataria os fundamentos econômicos e subiria os juros, atraindo capitais externos de qualidade. O viés mudou. Agora o dólar já reage em alta quando o mercado pensa nas consequências de sua vitória. A moeda permaneceu ontem em leve queda, seguindo o comportamento registrado nos mercados globais, durante a maior parte da tarde. Até piscar na tela entrevista do assessor econômico da candidata, Alexandre Rands. Ele disse à agência Reuters que um governo Marina Silva acabaria com o atual programa de intervenção cambial do Banco Central. E o dólar inverteu a mão, fechando em alta de 0,26%, a R$ 2,2972.

 Mas por que o dólar subiu tão pouco diante dessa bomba e por que o pregão de juros futuros da BM&F não acusou nem o seu deslocamento de ar? O DI persistiu em sua toada de pesado declínio mesmo depois do “vamos acabar com isso” do assessor. A taxa para janeiro de 2016 (a que reflete a expectativa para a política monetária que será praticada no primeiro ano do novo governo) recuou de 11,49% para 11,43%. E a taxa para janeiro de 2017 tombou de 11,60% para 11,51%.

Acabar com isso, com o vitorioso programa de intervenção cambial baixado pelo BC em agosto de 2013, no ano em que o Federal Reserve (Fed) irá iniciar a alta da taxa básica de juros americana (um acontecimento que pode ser traumático já que ela está congelada entre zero e 0,25% há quase seis anos) significa permitir o voo livre do dólar. Se alguém profetizar uma taxa de R$ 3,00 estará chutando. Pode ser isso, pode ser menos, mas também pode ser mais. O equilíbrio do balanço de pagamentos será alcançado, mas a inflação será violenta. Pode exigir uma Selic digna dos primórdios do sistema de metas de inflação, em 1999.

Mas o dólar e o DI preservaram a calma por duas razões. A primeira é que a candidatura pessebista perdeu vigor. A segunda é que o empate técnico embrutece as campanhas e não se sabe mais o que é compromisso firme e o que é apenas acenos destinados a granjear o apoio dos pregões. É preferível operar, apenas no curto prazo, em um terreno mais sólido, como aquele pavimentado pela ata da reunião do Copom da semana passada.

O texto responde de forma serena aos críticos que consideram a política monetária temerária e inconsequente. Mostrar que o trabalho está dando certo é a melhor forma de confrontá-los, longe das barras dos tribunais. O BC considera que a inflação, embora ainda elevada, não apresenta mais a “resistência” de meses anteriores. O documento incluiu a observação de que “as taxas de crescimento da absorção interna e do PIB se alinharam” e subtraiu passagem em que salientava o “descompasso” entre demanda e oferta. “Aqui temos uma informação relevante sobre a visão atual do Banco Central, uma vez que era justamente esse descompasso que vinha sendo apontado como fator de risco inflacionário nos documentos anteriores”, diz o economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros.

O IPCA se sustenta em nível elevado ainda por causa das pressões nos preços livres, administrados e taxa de câmbio. Salários corrigidos por índices acima dos ganhos de produtividade contribuem. Mas o BC diz que estas pressões “tendem a arrefecer ou, até mesmo, a se esgotarem ao longo do horizonte relevante para a política monetária”. A inflação baixará ao centro de 4,5% da meta inflacionária em 2016. A mensagem da ata é que não fará o choque de juros reclamado pelos críticos para trazer rapidamente o IPCA para os 4,5%.

A política persistirá gradualista. E ela já foi feita. De 11%, a Selic não sobe. Mas também não cairá para combater a estagnação econômica. A ata voltou a repetir que “é plausível afirmar que, mantidas as condições monetárias — isto é, levando em conta estratégia que não contempla redução do instrumento de política monetária” a inflação irá convergir ao centro da meta.

A impressão que a ata transmite é a de que o BC não se sente responsável pela queda da atividade econômica. Subiu a Selic de 7,25% para 11% entre abril de 2013 e abril 2014 para evitar que a inflação rompesse o teto de 6,5% da banda inflacionária. Recusou-se a conduzi-la até o degrau de 15% defendido pelos críticos como o único capaz de baixar o IPCA para 4,5%. Seria preciso gerar desemprego explícito para que isso acontecesse. A política monetária, se não for levada até as suas últimas consequências, tem eficácia discutível sobre o conjunto dos preços livres e dos alimentos.

E, no limite, ao elevar custos, pode até ter efeito contrário sobre os administrados. O BC não pode ser acusado de subserviência ao Planalto porque se negou a gerar desemprego. A principal vilã da estagnação não foi a política monetária, mas a falta geral de confiança nos rumos da economia. A acusação de ter contribuído para a queda da confiança ao praticar uma política de juros subalterna resulta de um mero subjetivismo ideológico. Se o BC quisesse consertar sozinho a sucessão de equívocos fiscais e regulatórios, o custo social seria impagável.

Não foi a política monetária a culpada pela queda das vendas varejistas em julho. A baixa informada ontem pelo IBGE chocou os analistas. Enquanto o mercado previa uma alta de 0,50%, as vendas caíram 1,1%, o pior resultado para um mês de julho em toda a série histórica. No cotejo interanual, as vendas se reduziram em 0,9%, quando os economistas esperavam avanço de 1,7%. E se a Selic estivesse em 15%?

Operar no curto prazo em área menos movediça significa também não desgrudar a atenção do mercado americano de juros. Toda vez que o mercado americano de “treasuries” esfrega as mãos com o renitente “agora vai” — o Fed estaria próximo de sinalizar com mais firmeza o momento e a intensidade do ajuste monetário — surge um dado do mercado de trabalho que põe tudo a perder. A taxa da T-Note vinha em acelerado galope desde a virada do mês e bateu em 2,54% na quarta-feira. Ontem, os pedidos de auxílio-desemprego feitos na semana passada trouxeram os investidores de volta à realidade. Eles subiram de 304 mil para 315 mil quando os especialistas previam queda para 300 mil. Ainda não foi desta vez, e T-Note baixou para 2,53%.

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