Milton Cunha: Viva Ilva Niño

Esta gente da cena é baú que, estimulado, vai despejando história, e eu sou o primeiro a abrir a tampa

Por O Dia

Rio - Procurando imóvel na Lapa, o dono da banca de jornais me disse: “Este aí é da Ilva Niño, aquela atriz da Globo, lembra?” Eu, Porcina, amo de paixão a “Miiinaaaaaa!”. E coloquei a cabeça para dentro da porta, tentando ver a escuridão para dentro do casarão da Mem de Sá, esquina com Gomes Freire, excitadíssimo, porque uma placa dizia “Theatro” e outra inscrição revelava “Ninho das Artes Luiz Mendonça”.

A velha Dama de 81 anos, gente como a gente, estava pintando as cadeiras de seu cabaré, sozinha, em cima do palco. Soltando o pincel, exclama: “Cunha! O que te traz até aqui?”. Sentei-me e fui perguntando tudo, e ela falando pelos cotovelos. “Pinto porque não tenho dinheiro para pintor, e como não quero que se metam no que faço, só monto aquilo que quero, então não tem patrocinador nenhum.” Por outro lado, penso que se ela não tiver o que fazer, ela morre. Então ocupa-se para driblar o vulto com a foice. “Neste 2015 completo 60 anos de ter sido a primeira mulher do padeiro do Auto da Compadecida de meu amigo Suassuna. Um tipo meio piranha, daquelas que usam saia longa, mas quando os homens passam vai logo arriando as calcinhas. Todo mundo no Recife meteu o pau na peça em 1955, mas quando viemos para o Festival da Dulcina, aqui no Rio, em 57, a crítica aclamou e virou este clássico. Ariano ganhou melhor autor, eu ganhei melhor atriz, e foi um sucesso. Depois entramos para o governo do Arraes e fomos trabalhar no MCP (Movimento de Cultura Popular): eu, Luis Mendonça (meu homem), Zé Wilker. Quando o Golpe de 64 estourou, estávamos num engenho apresentando uma peça para cortadores de cana.” Pois eu sabia que deste mato sairia coelho. Esta gente da cena é baú que, estimulado, vai despejando a história de minha nação, e eu sou o primeiro a abrir a tampa. Meus olhos brilham, me comovo por ela ter escapado de enfarte ano passado, e agradeço a Deus por tanta sorte. Tento fitá-la para poder descrever o flamejante olhar, sofrido: “Saímos corridos do Recife, com a ditadura atrás.

Carona, água de bica, nada pra comer, não nos falávamos porque não podiam saber que éramos um casal. Chegamos ao Rio 17 meses depois. Tenho este teatro porque não quero que o nome do Luis seja esquecido.” Ele dirigiu a Incelença, ganhou o Molière, lançou Elba Ramalho, Tania Alves, Tonico Pereira, Elke Maravilha, todos amigos queridos. Eles estão ensaiando para estrear em outubro ‘O Cabaret da Humanidade’, último trabalho de seu brilhante filho Luis Carlos Ninho. É sobre um diabo expulso por Deus do Paraíso. Segundo Ilva, ele vai ficar passado com a Lava Jato. Eu disse pra ela e conto para vocês: feliz do povo que pode aplaudir um ser humano de tamanho quilate.

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