Luiz Antônio Simas: Um otário na feira

Vez por outra temo que a feira vire uma grande macumba pra turista, como de resto boa parte da cidade

Por O Dia

Rio - Filho e neto de nordestinos, saídos de Porto Calvo de Alagoas e do Recife, cresci frequentando a Feira de São Cristovão por causa da família. Dancei muito forró na época do furdunço ao ar livre, debaixo do viaduto, quando o falecido Bastos, a garganta de aço do Trio Forrozão, ainda dava umas canjas na madruga antes de virar uma lenda do pé de serra. Reduto nordestino no Rio, com a fina flor da culinária do agreste, do sertão e do litoral do Nordeste, a feira ainda me dá a impressão de ter de tudo: Catuaba Leão do Norte, Atalaia Jurubeba, garrafada de tiborna, farinha de mandioca, tapioca recheada, cará, dendê de qualidade, arroz de cuxá e peneira de cruzeta, que meu filho sempre quer comprar para pegar saci nos redemoinhos das matas da Tijuca; já que o pererê peralta gosta mesmo é de vadiar nos torvelinhos do vento.

Confesso que a feira anda me preocupando um pouco. A Lapa foi ‘disneylandizada’; o Maracanã é uma mistura de McDonald’s, Alcatraz e Wimbledon; o Cadeg virou point descolado de degustação de vinhos; tem gente que acha que o Belmonte é boteco; o mercado, que deveria ser de Exu, virou uma espécie de entidade que se acalma ou se agita mediante taxas de juros; macarrão com queijo ralado agora é “massa com notas de lascas de queijo” e purê virou mousseline. Para piorar a sensação de tragédia, a língua tem saído de cardápios de estabelecimentos tradicionais porque ninguém mais pede. Vez por outra temo que a feira vire definitivamente uma grande macumba pra turista, como de resto boa parte da cidade. Os preços de algumas barracas parecem confirmar o meu receio.

Noves fora isso, na feira continuo me sentindo em casa, com gente de tudo quanto é canto. E é evidente que quando tento tirar onda de cabra da peste, acabo pagando de otário. Dia desses fui lá para almoçar com a família. De cara perguntei ao garçom, devidamente vestido de cangaceiro, se a pimenta caseira era forte. O cabra respondeu, com sotaque de Nova Russas, que a bichinha era das mais fracas. Como sou chegado numa ardida, tasquei com a vontade do artilheiro que, em jejum de gols e diante do goleiro adversário, enche o pé para estufar a rede e acaba isolando a redonda pra fora do estádio. Foram quatro chopes tomados de golada até controlar o incêndio nas entranhas. Se eu contar essa para meu avô em alguma sessão de mesa espírita, o velho certamente responderá pela boca do médium com o sotaque que, com 40 anos de Rio, nunca perdeu: “Todo castigo pra burro é pouco, cabra!”

E-mail: luizantoniosimas67@gmail.com


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