Protesto em São Gonçalo termina em confusão

Pequeno grupo quebrou vidraças, ateou fogo em lixos e bloqueou vias. Até o momento, 20 foram detidos

Por O Dia

Rio - A exemplo da manifestação histórica que reuniu 100 mil pessoas no Centro do Rio nesta segunda-feira, o protesto contra o aumento da tarifa nos ônibus em São Gonçalo, na Região Metropolitana, acabou em confusão na noite desta terça-feira.

Por volta das 19h25, mais de 5 mil manifestantes começaram a se dispersar pela região. No entanto, um pequeno grupo de 50 pessoas começou a quebrar vidraças nas esquinas das Avenidas Nilo Peçanha com Presidente Kennedy, local do fim do protesto.

Entre as ações, os manifestantes deprederam agências bancárias, atearam fogo em uma caçamba de lixo e arrancaram uma cabine telefônica do lugar, além de quebrar vidraças próximas como as da unidade do Sesc/Senais e chutar portas de lojas de departamentos e cones pelas ruas.

Policiais do 7º BPM (São Gonçalo) reagiram com bombas de efeito moral, mas o grupo revidou lançando malvinas em direção aos PMs. Jovens com panos no rosto gritavam "Acabou o amor, isso aqui vai virar o inferno". 

Manifestantes atearam fogo em montes de lixo pelas ruasAlexandre Brum / Agência O Dia

Os presentes deprederam o prédio do TRE, lanchonetes, picharam muros e lojas e promoveram correria em ruas próximas. Até o momento, 20 deles foram detidos em flagrante depredando lojas. Os manifestantes pediram que eles fossem liberados, mas a PM não cedeu. Duas pessoas ficaram feridas por balas de borracha.

Bianca de Oliveira, 18 anos, está com uma marca na perna direita por conta de um bomba de efeito moral que a atingiu. "Estava acompanhando a manifestação quando a polícia começou a jogar bombas. Ainda tacaram spray de pimenta no meu rosto. Agiram com violência", relatou.

Mais de 5 mil pessoas protestam em São GonçaloLeitor Rodrigo Azeredo

O trânsito liberado na região. Neste momento, os PMs perseguem os manifestantes com cães e os envolvidos devolvem com pedradas. Os policiais dispararam bombas de efeito moral. Na confusão, um policial de moto atropelou um colega. 

Um PM, que não quis se identificar, afirmou que a confusão foi causada por moradores de comunidades nos arredores. "Tudo foi pacífico, mas quando acabou, moradores de comunidades vizinhas, como as do Morro do Feijão, Querosene e Menino de Deus causaram tudo. Isso foi em represália a morte de um traficante conhecido como Sinho, chefe do tráfico no Querosene, que foi morto essa semana em uma troca de tiros", afirmou.

Protesto reuniu mais de 5 mil em frente à Prefeitura

Mais de cinco mil pessoas protestaram contra o aumento na tarifa de ônibus em São Gonçalo, na Região Metropolitana, na tarde desta terça-feira.

O grupo protestou em frente à sede da Prefeitura local, que ficou cercada por homens do Batalhão de Choque. Cerca de 200 homens do 7º BPM (São Gonçalo) acompanharam a movimentação.

Em toda a região o comércio fechou mais cedo. Muitas lojas fecharam por volta das 17h30. Um dos comerciantes, que não quis se identificar, disse estar com medo. "Você acha que quero ter o risco de ter o vidro da minha loja quebrados. É melhor me prevenir e fechar as portas. Estou com medo de que aconteça a mesma coisa do que no Rio", afirmou.

Muitos carregaram faixas e cartazesLeitor Rodrigo Azeredo

Manifestantes carregaram faixas e cartazes. Muitos pintaram as caras. Em alguns dos cartazes, foi possível ler "Gritamos paz, ganhanhamos gás, como é que faz?" ou "O gigante acordou".

Parte da multidão ficou na Rua Salvatore. Outro bloco do protesto seguiu a 50 metros de distância, permanecendo sentado na porta da Prefeitura.

Ivone Nazaré, 76 anos, aposentada disse estar inconformada com a situação. "Não sou usuária, mas a vergonha é que a passagem está mais cara que a maconha. Um absurdo", disse ela. Um grupo de seis pessoas chegou a ensaiar atos de vandalismo, mas foram duramente repreendidos pelos participantes.

Segundo manifestantes, o prefeito Neilton Mulin prometeu em campanha que a passagem seria R$ 1,50. As escadarias foram ocupadas, mas o bloqueio feito pelo Choque e pela guarda municipal impediu a entrada dos ativistas.

Manifestantes se concentraram em frente à PrefeituraLeitor Rodrigo Azeredo

Um princípio de tumulto chegou a ocorrer, mas foi dissipado rapidamente. Poucos participantes atearam fogo em uma pequena quantidade de lixo na Rua Antônio Figueiredo, mas já foi apagado.

Manifestantes gritaram: "Quem tá com a gente pisca a luz". Vários prédios, em sinal de apoio ao protesto, piscaram as luzes no apartamento. Moradores dos prédios vizinhos penduram camisas brancas nas janelas.

NA Avenida Doutor Nilo Peçanha, oito carros da PM bloquearam a via. Na Avenida Presidente Kennedy, ocorreu mesma situação. A polícia pediu que os participantes desbloqueassem a via.

Prejuízo na Alerj é de R$ 2 milhões

O prejuízo no prédio da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) varia entre entre R$ 1,5 milhão e R$ 2 milhões. A informação foi dada pelo deputado Paulo Melo, presidente da Casa, na manhã desta terça-feira.

Na noite desta segunda-feira, após a manifestação que reuniu 100 mil pessoas no Centro da cidade, um grupo depredou o prédio histórico. Ainda de acordo com Melo, 30% das vidraças foram quebradas, móveis destruídos e a fachada pichada.

"Lamento profundamento o ocorrido na Alerj, na Igreja São José, no Paço Imperial e no Mosteiro do Carmo. Mas fiquei entusiaamado com o propósito da passeata. Para mim, a passeata terminou na Cinelândia. Acho desonesto se não separarmos a ação pacífica e ordeira da Rio Branco com a desordem que aconteceu nesta parte histórica do Centro. A seguranca da Casa resistiu de forma quase heróica para que nao houvesse uma invasão. Me nego a tratar isso como protesto. Foi vandalismo", disse Melo.

Paulo Melo disse também que a polícia agiu de acordo com suas orientações. De acordo com ele, quando os manifestantes chegaram ao local havia 75 PMs. "Quem determinou que não houvesse confronto fui eu. A decisao da chegada do Batalhão de Choque foi tomada junto com o governador Sérgio Cabral", reiterou.

O gabinete do deputado Bernardo Rossi (PMDB) foi um dos afetados. "Temos que separar o joio do trigo. Na Rio Branco houve a grande manifestação, um protesto para entrar para a história. O que houve aqui é vandalismo. O que eles ganham com isso? Cometerem um crime contra o patrimônio e contra a própria manifestação", salientou Rossi.

Funcionários da Comlurb trabalham nesta terça-feira para limpar a fachada da Alerj e remover o lixo das ruas próximas. O prédio histórico do Paço Imperial, vizinho da Assembléia foi pichado. No total, 20 PMs e oito civis ficaram feridos, sendo quatro à bala. Um foi liberado. Leandro Silva dos Santos, ferido na perna, e um homem - que a família pediu para o nome não ser divulgado - baleado no tórax, estão em observação no Hospital Municipal Souza Aguiar (HSA), no Centro. Bruno Alves dos Santos está internado no Hospital Federal do Andarai (HFA), na Zona Norte.

Funcionário trabalha na limpeza da AlerjOsvaldo Praddo / Agência O Dia

Um dos estabelecimentos atacados pelo grupo foi a Churrascaria Ao Vivo, na Rua São José, em frente à Alerj. Segundo Marcos Cunha, de 44 anos, um dos sócios, os baderneiros - muitos mascarados - invadiram o estabelecimento, que estava fechado. O primeiro andar foi totalmente destruído, inclusive as câmaras do circuito de segurança.

Bebidas, TVs e outros eletrodomésticos foram roubados ou quebrados. Os vândalos também chegaram ao segundo andar onde também quebraram pertences e roubaram produtos. Eles não conseguiram chegar ao terceiro andar. O empresário calcula o prejuízo em cerca de R$ 200 mil. Ele criticou a ausência da PM.

"Assisti a tudo da minha casa, quando monitorava a movimentação das cãmeras do circuito de segurança. Liguei e abri vários protocolos de atendimento pelo 190 e nada. A PM, pra gente que paga imposto, não vale nada. Não sei quem vai arcar com o prejuízo. Vou fazer uma faxina aqui e vender o estabelecimento. O seguro que temos é muitio pequeno. Estou atônito", disse Marcos revoltado.

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