Interditada creche social que atendia 40 crianças em Del Castilho

Defesa Civil e Corpo de Bombeiros fecham Lar da Tia Beth, alegando risco de vida. Família não tem para onde ir

Por O Dia

Cada cômodo da casa foi transformado para receber as crianças e as doaçõesDivulgação

Rio - Foi um "presente" antecipado, às avessas e de mau gosto, pelo Dia das Crianças. Desde 1979, Elizabeth Ferreira Cardoso, hoje com 64 anos, transformou sua casa humilde, em Del Castilho, em abrigo para crianças das comunidades vizinhas. Era a esperança de muitas mães que, sem vagas em creches públicas, não tinham com quem deixar seus filhos para trabalhar. Na manhã desta sexta-feira (11), o Lar da Tia Beth, que já chegou a atender 80 crianças e hoje recebe 40, foi fechado por ordem judicial, com apoio da Defesa Civil e Corpo de Bombeiros, sob alegação de apresentar risco à segurança dos menores. Tia Beth e sua família, que residem no local, também foram despejadas.

O mandado de interdição do imóvel e das atividades da entidade de atendimento aos menores foi decidido por liminar concedida pela 1ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso, a pedido do Ministério Público do Estado, em ação civil pública. A ação alega que o espaço funcionava informalmente, sem inscrição nas secretarias de Educação e de Assistência Social do município, nem no Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Criança, do Adolescente e do Idoso. E que o imóvel não oferecia condições estruturais para funcionamento, correndo, inclusive, risco de desabamento, conforme laudo pericial, "o que pode afetar a integridade física e a própria vida de todas as pessoas envolvidas nas atividades lá desenvolvidas". O local deverá permanecer fechado até decisão judicial definitiva.

De acordo com Tia Beth, os agentes fizeram recomendações de segurança - como instalação de extintores e exaustores -, e acataram a sugestão de interdição, sugerida em laudo elaborado por um engenheiro que esteve no local há cerca de um mês e apontou o risco de desabamento. No entanto, informalmente, os bombeiros teriam dito que não seria necessária a interdição. "Eles disseram que não tinha nada grave a ponto de precisar fechar", afirmou Tia Beth.

Para tentar revogar a interdição junto ao plantão judiciário, ela e sua família precisavam do novo laudo elaborado pelo Corpo de Bombeiros na visita desta sexta. Mas, ao procurar o setor responsável na sede da instituição, descobriram que só funcionava até 12h às sextas-feiras. "Demos com a cara na porta. O setor fechou ao meio-dia e vamos ter que esperar até segunda-feira, às 9h", disse a diretora da creche. Procurada pelo DIA, a assessoria do Corpo de Bombeiros não retornou.

Desolada, Tia Beth não sabia o que fazer até o início da noite desta sexta. "Não tenho para onde ir. Moro aqui há mais de 40 anos", disse ela, uma das ocupantes dos imóveis que pertencem ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) na Avenida Dom Hélder Câmara. A família - que a ajuda nas atividades da creche - também teme que, com a desocupação, o imóvel acabe sendo alvo de invasões durante o final de semana, já que é cercado por comunidades, algumas dominadas pelo tráfico de drogas. A ideia agora é fazer uma campanha para levantar recursos para financiar a reforma do sobrado, para atender às exigências do Corpo de Bombeiros.

Uma vida dedicada à solidariedade

Quase sempre descalça e vestindo camisetas de propaganda, ela recebe todos com um sorriso largo, que denuncia, além da falha de alguns dentes, a figura simples e humilde que administra a casa que leva seu nome. Mãe de nove filhos – quatro “de coração”, como diz –, Tia Beth adaptou cada cantinho de sua casa para receber as crianças. Os cômodos ficam entupidos de brinquedos, roupas, pastas e livros escolares, vindos de doações de grupos de voluntários, religiosos e comerciantes locais.

Tia Beth%2C que desde 1979 mantém o espaço%2C hoje atende a cerca de 40 criançasDivulgação

A visível precariedade das instalações é decorrente da ausência completa de verbas oficiais ou patrocínio de empresas. Além das contribuições irregulares das famílias que utilizam o espaço (que variam entre R$ 50 e R$ 100 por mês), o lar sobrevive de cestas básicas enviadas, ironicamente, pela Justiça e Ministério Público. São, na verdade, o pagamento que alguns réus têm que assumir ao assinar acordos de transação penal nos juizados de pequenas causas. "É uma juíza que manda pra gente", diz ela.

Atendimento mais de 12h por dia

O espaço oferece atendimento a crianças de 4 a 14 anos, em regime de creche social, em horário integral, com a escolaridade oferecida nas escolas públicas da região. “Tia Beth” – ou “vovó Beth”, como muitas crianças a chamam – trata a todos como uma verdadeira mãe.Boa parte dos menores atendidos, embora tenha referência familiar, nem sempre encontra verdadeiramente um lar em suas residências.

“A maioria das mães trabalha como doméstica, manicure, gari ou no comércio da região e não tem com quem deixar os filhos. Há pais que são viciados e não ajudam nas despesas da casa. Já tivemos aqui muitos casos de crianças que eram espancadas ou torturadas dentro de casa”, relembra Tia Beth.

Segundo ela, muitas mães desistem de colocar os filhos em creches municipais da região, pois o horário é incompatível com o trabalho. “Lá, o expediente termina entre 16h e 17h e não atende às mães que precisam trabalhar. Aqui a gente fica com a criança até a mãe voltar do trabalho e pegar aqui. Tem gente que trabalha em shopping (o Nova América, que fica próximo), e quando vem buscar, já é quase onze da noite”, explica a "diretora" da creche.

As crianças não passam a noite no espaço, mas ali tomam café da manhã, almoçam, lancham, jantam e tomam banho. Tia Beth conta apenas com a ajuda das filhas, Luciana, 29, e Rosana, 31, para realizar todas as tarefas. O trabalho começa bem cedo. Às 4h da madrugada, Tia Beth já está de pé e às 5h chega a primeira criança. A última, só sai por volta das 23h. Além disso, é o filho Alex quem busca as crianças na escola. "Tudo isso a pé, pois não temos um carro próprio”, conta Tia Beth.

Algumas chegam a caminhar por quase uma hora, debaixo de chuva ou do sol quente. “Se tivéssemos um carrinho, também poderíamos pensar em fazer algum programa de lazer com as crianças, como ir à praia. Tem criança aqui que nunca viu o mar”, afirma Tia Beth. 



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